Vozes: Jerónimo Pizarro, Jorge Louraço, Luís Miguel Nogueira Rosa Dias, Manuela Nogueira, Richard Zenith, Leonor Forjaz, Manuela Parreira da Silva e Sofia Saldanha

 

Música:

“All Will See” by Hyson

Free Music Archive / License – Attribution 4.0 International (CC BY 4.0)

 

“Nocturne Op 9 No 2” by Podington Bear

Free Music Archive / Attribution-NonCommercial 3.0 Unported (CC BY-NC 3.0)

 

Bibliografia:

“Chuva Oblíqua”, Poesias, Fernando Pessoa (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). – 27-34.

1ª publ. in Orpheu, nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.

 

[Carta a João Gaspar Simões - 11 Dez. 1931]

Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980.

 - 175.

1ª publ. in “Presença”, nº 48. Coimbra: Julho. 1936.

1. Todo o theatro é o meu quintal, a minha infância

Largo São Carlos / Chiado

Narrador: Este é o Largo de São Carlos, em tempos chamado, Largo do Directório. Na tarde do dia de Santo António, 13 de Junho, de 1888, nasceu aqui um menino. Foi no quarto andar esquerdo do número 4, neste prédio em frente ao teatro lírico.

 

Jerónimo Pizarro: Ele fez cálculos para saber em que momento foi concebido, e portanto em que momento chegou ao, ele, espermatozóide, chegou ao útero materno e utilizou a astrologia para calcular a data da concepção, da conceição. Não tinha certeza sobre o minuto em que tinha nascido, mas a verdade é que fez horóscopos para tentar calcular o momento em que ia morrer e que os horóscopos estão praticamente certos.

 

Narrador: Este menino que viria a interessar-se pelos enigmas do mundo, nasceu no seio de uma família burguesa e católica. Foi baptizado na Basílica dos Mártires, mesmo aqui ao lado.

 

Jerónimo Pizarro: E daí essa tal história de estar a ouvir as badaladas, o sino, os sinos da minha aldeia.

 

Fernando Pessoa: O sino da minha aldeia é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A

aldeia em que nasci foi o Largo de São Carlos.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: Ele tinha uma grande relação, muito chegada com a mãe dele, com a minha avó.

 

Manuela Nogueira: A minha avó era muito culta. A mãe da minha mãe, a mãe dele, era uma mulher para a época muito culta. Porque falava inglês correntemente, falava francês correntemente, escrevia, tocava piano lindamente, e fazia versos.

 

Richard Zenith: O pai de Pessoa trabalhava no Ministério da Justiça, e escrevia críticas de música no Diário de Notícias. Era um apaixonado da música, e eles moravam, talvez não por acaso, mesmo em frente do Teatro de São Carlos onde havia ópera, a forma musical preferida do pai de Fernando Pessoa.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: As pessoas que viviam com eles em casa, em frente ao Teatro de São Carlos eram, além de uma empregada doméstica já de certa idade, a mãe e o pai, e a tal da avó Dionísia que tinha acessos graves de loucura.

 

Richard Zenith: A mãe do pai do Fernando Pessoa. E essa avó era complicada, porque sofria de problemas de demência, chamava-se segundo o primeiro biógrafo, a demência rotativa, que tinha fases que estava mais ou menos bem, outras fases nada bem.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: E que volta e meia era amarrada e ia para o Rilhafoles que era o hospícios da altura, das urgências, quando as pessoas tinham

ataques de loucura.

 

Richard Zenith: Começava a partir a louça e a fazer confusão em casa. E depois outro factor triste, e cada vez mais, era a doença do pai que era tuberculoso.

Manuela Nogueira: O pai adoeceu, estava muito doente, ali no Largo de São Carlos,

depois foi para a quinta, uma quinta, hoje em dia é Caneças, Telheiras, naquela zona, e foi para lá para se curar, como se pensava que eram com os bons ares, não havia nada para a tuberculose.

 

Manuela Nogueira: O que ele sentiria ver o pai longe e doentíssimo e ele a ir com a mãe numa carruagem puxada a cavalos numa lonjura, que naquela altura era muita, para visitar o pai que estava doente. E de vez em quando ficava lá, porque naquela altura não havia a ideia da perigosidade da tuberculose.

 

Narrador: Do casamento de Maria Madalena e Joaquim nasceu outro rapaz: Jorge. Nessa altura Fernando tinha já 4 anos e meio.

 

Richard Zenith: Depois o pai de Fernando morre, 6 meses depois e essa pequena família, Fernando, a mãe, o irmãozinho de Fernando, o Jorge, mudam-se para outra casa mais pequena. Mas depois o Jorge também morre, com quase um ano de idade. É mais ou menos nessa altura que a mãe de Fernando Pessoa conhece o comandante que vai ser o seu segundo marido, João Miguel Rosa. Gostavam-se muito um do outro, era uma relação, um encontro muito forte entre os dois.

Narrador: João Miguel Rosa foi nomeado cônsul na África do Sul, por isso casaram por procuração. A viagem era longa. Maria Madalena pensou em partir para África do Sul sozinha e deixar o pequeno Fernando à guarda da família. Mas o menino não quis ficar, preferiu ir. O amor que tinha pela mãe foi declarado num poema. Fernando Pessoa: Eis-me aqui em Portugal, Nas terras onde eu nasci, Por muito que goste

delas, Ainda gosto mais de ti. Manuela Parreira da Silva: Conta-se essa história, não sei se terá sido assim, mas, que perante aquele poema a mãe comoveu-se e não foi capaz de o deixar. Mas talvez isto seja uma história, porque provavelmente apercebeu-se, ou não foi capaz de o deixar, teve pena de o deixar, e ele acabou por ir.

 

Richard Zenith: Logo depois do casamento, que foi no dia dos anos da mãe, 30 de Dezembro de 1895, a mãe de Pessoa, Fernando e um tio de Fernando, o tio Cunha, tio- avô foi com eles para a África do Sul.

 

Narrador: Fernando Pessoa viveria na África do Sul até aos 17 anos, embora com uma passagem por Portugal entre 1901 e 1902. Sobre esse período falaremos no episódio seguinte. Vamos agora em direcção à Praça de Luís de Camões.

Largo São Carlos / Chiado
Largo São Carlos / Chiado
Largo São Carlos / Chiado
Largo São Carlos / Chiado