Vozes: António Mega Ferreira, José Barreto, Pedro Sepúlveda e Sofia Saldanha

 

Bibliografia:

Sá-Carneiro, Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).

 - 184.

 

 

10. Aí em baixo, no café Arcada

 

Café Martinho da Arcada / Baixa

Narrador: Deve estar no Martinho da Arcada. Este café abriu em finais do século XVIII. Em  tempos era conhecido como “Casa da Neve”. Era dos poucos locais em Lisboa que vendia gelo, conservado a partir da neve que caía nas terras altas. O Martinho da Arcada foi muito frequentado por artistas, militares e políticos. Esta praça albergou, e ainda alberga alguns ministérios. Peça para ver a mesa onde Fernando Pessoa se sentava. Há fotografias na parede que evocam esses tempos. As temáticas pessoanas são numerosas. É um homem de interesses ilimitados.

 

António Mega Ferreira: Nos documentos que estão no espólio, há coisas absolutamente extraordinárias, o homem interessava-se por design de montras, pelos resultados do jogos de língua inglesa de futebol, provavelmente por causa de um sistema de apostas, não interessa, e essa curiosidade omnívora do Fernando Pessoa convergia com outra coisa, uma grafo mania absolutamente, indetível, o Fernando Pessoa qualquer coisa que pensava tinha que escrever.

 

José Barreto: Como é que ele escrevia? Ele tem milhares de coisas escritas de facto a lápis. Ele andava sempre, com cotos de lápis. Se tivesse um lápis inteiro partia-o em 3, e depois afiava-os dos 2 lados. Andava com os bolsos sempre com 2, 3, 4 lápis. Era assim que o Fernando Pessoa escrevia. Um amigo ofereceu-lhe uma lapiseira - muito boa, uma lapiseira decente e tal e que ele rejeitou-a, ao fim de... aceitou-a e tal mas ao fim de 2 ou 3 dias ofereceu-a a alguém porque aquilo lhe fazia cócegas na ponta dos dedos.

 

Narrador: Também escrevia à máquina. Ficava, à noite, nos escritórios a organizar trabalho e a passar os seus escritos. Aliás, gostava de ter as chaves dos escritórios para poder trabalhar quando lhe apetecia. Muitas das suas ideias originaram projectos. Concretizou alguns, outros ficaram só no papel. Dos que saíram do papel, nenhum teve sucesso comercial.

 

António Mega Ferreira: Ele não tinha nenhuma, mas nenhuma inclinação para o negócio. Passou a vida inteira a querer ter negócios. Era de facto um extraordinário empreendedor mental, com muito pouca capacidade empresarial, digamos assim. Era uma pessoa que pensava constantemente, inventava, era uma pessoa que inventava. Há um documento extraordinário, que é um documento, em certa altura ele quis fazer uma empresa que se chamaria Cosmópolis. Os documentos da Cosmópolis é uma coisa extraordinária, porque é uma lista, salvo erro de mais de 80 ideias para negócios, que eu quase ia jurar que aquilo foi feito de seguida. E inventos mais diversos, os carretos da máquina de escrever são conhecidos, que no fundo prefiguram a bola da máquina de escrever eléctrica, que foi uma coisa que só apareceu muitíssimo mais tarde, os negócios das concessões de minas O que nós podemos hoje dizer é que ele aplicou horas e horas e horas e horas de esforço e de trabalho a desenvolver essas ideias que depois nunca levava à prática não é?, nunca eram à prática.

 

Narrador: A certa altura registou a empresa “Olisipo: Agentes, Organizadores e Editores”. Estávamos em 1921.

 

Pedro Sepúlveda: A ideia é que fosse também uma empresa intermediária em certo tipo de comércio, portanto servia para tudo e mais alguma coisa, incluindo coisas de propaganda turística, sobre Portugal e Lisboa, portanto era assim, queria ser uma empresa multifacetada, digamos, mas que durou pouco tempo e acabou por publicar só 4 livros.

 

Narrador: Esses 4 livros eram as versões definitivas dos English Poems do próprio Pessoa, A Invenção do Dia Claro de Almada Negreiros, Sodoma Divinizada de Raul Leal e a segunda edição das Canções de António Botto. Os livros de Botto e Leal foram mandados apreender pelas autoridades. Eram vistos como imorais e escandalosos.

 

António Mega Ferreira: Nós sabemos que os livros se vendem por escândalo, e que a edição das Canções do António Botto e designadamente a Sodoma Divinizada do Raul Leal em princípio devia ter-se vendido bastante bem. O próprio escândalo era querido pelo Fernando Pessoa. Ele sentia que aqueles eram os livros que ele queria editar na Olisipo, embora o plano editorial da Olisipo fosse alucinante.

 

Narrador: Em 1924, a Olisipo já tinha acabado. E Pessoa continuava cheio de projectos. Cria a Revista Athena, que também só publicou cinco números. Nela Pessoa publica pela primeira vez Alberto Caeiro e Ricardo Reis, bem como os últimos poemas de Mário de Sá-Carneiro. É uma revista que tem como objectivo principal divulgar a obra  pessoana.

 

António Mega Ferreira: Vai  sendo divulgada em, em pequenas doses e vai construindo por assim dizer um corpus poético, sobretudo poético, um corpus poético que é absolutamente invulgar, e é isso que possibilita que em 1927 quando sai o primeiro número da revista Presença os presencistas o saúdem como mestre.

 

Narrador: Em 1934 uma avolumada quantia em dinheiro iria chegar-lhe às mãos, mas não pela via dos negócios. No episódio seguinte vamos saber como isso aconteceu. Vamos agora para o Terreiro do Paço.

 

Café Martinho da Arcada / Baixa
Café Martinho da Arcada / Baixa
Café Martinho da Arcada / Baixa
Café Martinho da Arcada / Baixa