Vozes: José Barreto, António de Oliveira Salazar, Teresa Rita Lopes, Pedro Teixeira da Mota, Steffen Dix, Jorge Louraço, Rita Patrício, Pedro Sepúlveda, António Mega Ferreira e Sofia Saldanha

 

Música: excerto de Fado do Embuçado (letra de Gabriel de Oliveira Música de José Marques "Piscalarete". Criado para o repertório de Natália dos Anjos.)

 

Bibliografia:

António de Oliveira Salazar. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979.  - p. 349.

1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 . inc? CF. lello – fotoc

 

Quinto: Nevoeiro, 10-12-1928

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).

  - 104.

 

 

 

11. É a hora!

 

Terreiro do Paço / Baixa

Narrador: Estamos no Terreiro do Paço. Aqui no dia 1 de Fevereiro de 1908, o rei de Portugal D. Carlos e o filho mais velho, Luís Filipe, são mortos a tiro. A Monarquia cai. Os portugueses estão fortemente divididos entre republicanos e monárquicos. Portugal é um país em mudança e Pessoa, integra-se nela, com muito entusiasmo.

 

José Barreto: Não se pode encontrar na vida do Fernando Pessoa um período em que ele tenha apoiado o poder. Foi sempre contra. Foi sempre crítico e contra.

 

Narrador: Em 1926 há um golpe de estado em Portugal, que resulta numa ditadura militar. À ditadura militar seguiu-se o Estado Novo. Um regime autoritário e conservador, fundado por António de Oliveira Salazar.

 

António de Oliveira Salazar: Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.

 

José Barreto: Ele é crítico do Estado Novo e do Salazar mas aceitava. Diz "eu não sei o que é isso de Estado Novo", mas dizia "pronto, o Salazar administra bem as finanças, a moeda, a moeda tem credibilidade no estrangeiro, reconhecia algumas coisas e portanto ele achava que menos mal. Só que depois ele acaba por se virar completamente contra o regime em 1935, 34, 35.

 

Narrador: Uma das figuras do regime, António Ferro que conhecia Fernando Pessoa já dos tempos do Orpheu. Ferro foi, aliás, o editor do número 1 da revista.

 

Teresa Rita Lopes: O António Ferro foi encarregado de criar em 1933, quando se formou o Estado Novo, o Secretariado de Propaganda Nacional.

 

Narrador: O Secretariado de Propaganda Nacional cria um prémio literário, o Prémio Antero de Quental. Quer galardoar um livro de cariz nacionalista.

 

José Barreto: A Mensagem, que se chamava que se intitulava Portugal e não se intitulava a Mensagem, intitulava-se Portugal, era apenas uma das várias obras que o Fernando Pessoa tinha em mente para publicar. Teve apenas fazer mais 10 ou 12 poemas em 34 para completar o livro, portanto era relativamente fácil acabar o livro e publicá-lo e ainda por cima ganhar um prémio que lhe estava mais ou menos já prometido.

 

Teresa Rita Lopes: Só que ele teve no júri uma pessoa, ainda por cima um antigo amigo dele, o Mário Beirão, mas era lá dos tempos da Águia, e que já não gostava dele, e não lhe deram a ele esse prémio, deram a um frade que escreveu um livro chamado 'Romaria'. Mas o António Ferro arranjou maneira de haver um outro prémio, não é um segundo prémio, é um prémio não para um livro, mas para um poema, e então a Mensagem foi premiada com o mesmo valor, 5 contos de reis, na altura era muito muito dinheiro, 5 mil escudos, não é?

 

Pedro Teixeira da Mota: Pois, eu acho que a Mensagem é uma obra que tem uma, uma dimensão de uma perenidade muito grande, é uma obra em que Fernando Pessoa trabalhou-a desde muito cedo, está ali uma combinação muito perfeita de palavra, de ritmo, de som, de imagem e de forças espirituais que são evocadas daquelas pessoas e que estão dentro de nós e que nós dizemos manifestar, portanto é uma obra mágica.

 

Steffen Dix: Tem uma vertente esotérica, vamos dizer a esperança de Pessoa, que, e ele sempre teve esta esperança, que Portugal um dia vai voltar para esta glória que teve no passado , e isso realmente era esperança e assim explica-se aquele fenómeno esotérico e também racionalmente é uma forma um pouco difícil de explicar como é um pequeno país, muito rural, com um grande número de analfabetos, podia descobrir quase um mundo inteiro, isto racionalmente é muito difícil de explicar.

 

José Barreto: O Ferro tinha consciência do valor literário do Fernando. Portanto, qual era a intenção do Ferro? Ele explicou-a. Ele queria fazer dele o poeta do Estado Novo, o poeta e profeta do Estado Novo. E queria transformar a Mensagem nisso mesmo. Não esqueçamos que a Mensagem termina com "É a hora!", não é?, e isto passa-se no princípio do Estado Novo.

 

Narrador: Mas Pessoa nunca esteve interessado em ser um escritor do regime.

 

José Barreto: Um mês depois dele ter recebido o prémio ele resolve escrever aquele artigo bombástico, a que ele chamou mesmo bomba, "preparei pela primeira vez na minha vida, fiz uma bomba e atirei-a para o meio da rua", que era um artigo a elogiar o inimigo número um do regime, o que foi visto, foi visto como uma enorme ingratidão, uma garotice de um homem que ainda agora, a quem ainda agora demos um prémio, não é? A partir daí o Fernando Pessoa está queimado.

 

Narrador: Há uma cerimónia de entrega do prémio. Pessoa não comparece. Salazar faz um discurso.

 

José Barreto: E o discurso provocou-lhe uma reacção de enorme rejeição. Ele achou-se interpelado pelo Salazar, porque o Salazar, no tal discurso dizia que era necessárias, era necessário a censura, por um lado. E por outro lado, directrizes aos escritores e aos artistas, não é? Uma coisa é proibir, é dizer o senhor não pode escrever isto, outra coisa é dizer o senhor tem que escrever isto, não é? Quando se vira contra o regime vai dizer vai dizer vai dizer uma coisa muito engraçada -  é que não sabia, não sabíamos que para termos boa administração tínhamos que vender a nossa alma. Já tinha saudades  de quando o país era mal administrado.

 

Narrador: E esse é o ponto de viragem na posição de Pessoa em relação ao Estado Novo.

 

Fernando Pessoa:

António de Oliveira Salazar.

Três nomes em sequência regular...

António é António.

Oliveira é uma árvore.

Salazar é só apelido.

Até aí está bem.

O que não faz sentido

É o sentido que tudo isto tem.

 

Pedro Teixeira da Mota: E depois em Março ele escreve aquela famosa nota biográfica de 30 de Março em que ele então define-se a si próprio, é aí que ele se diz, que é um liberal, um nacionalista liberal e que se diz também um cristão gnóstico, fiel à tradição secreta de cristianismo e depois na posição iniciado e que se diz iniciado dos 3 graus menores e por mestra a discípulo da aparentemente extinta ordem templária de Portugal. Portanto ele quando diz cristão gnóstico diz também inteiramente oposto à igreja católica de Roma. A igreja de Roma tanto mais que ele achava que era uma das forças que estava por trás da proibição, das associações secretas.

 

Narrador: Já em 1928 Pessoa tinha publicado na Revista Presença uma A Tábua Bibliográfica. É uma revista sediada em Coimbra, cujos directores são José Régio, Adolfo Casais Monteiro e João Gaspar Simões.

 

Rita Patrício: Um dos grandes objectivos da revista Presença seria a publicação e a ressurreição, digamos assim, da obra de Mário de Sá Carneiro e desde o primeiro momento Fernando Pessoa mantêm com estes nomes uma correspondência bastante regular e é uma correspondência muito interessante, porque Pessoa percebe que estão ali os seus primeiros leitores a sério, os seus primeiros críticos a sério e então essa correspondência dá-nos informações absolutamente preciosas, por um lado sobre o modo como Pessoa começou a ser lido e depois como é que Pessoa reagiu a esta leitura.

 

Pedro Sepúlveda: O primeiro estudo sobre Pessoa é publicado ainda em vida de Pessoa pelo João Gaspar Simões, é um capítulo de um livro chamado O Mistério da Poesia, em que Pessoa reage de uma maneira efusiva, ele acha aquilo absolutamente extraordinário.

 

Pedro Teixeira da Mota: Quase que chora, como ele escreve numa carta, quando recebe do Gaspar Simões grandes elogios.

 

António Mega Ferreira: Ele está lisonjeadíssimo com, com, e sobretudo, de alguma forma ele percebe que aquilo que aquilo em que ele sempre acreditou começa a ganhar corpo, que mais do que o reconhecimento da geração dele, o que lhe interessa é o reconhecimento das gerações seguintes.

 

Rita Patrício: Portanto quando Pessoa escreve para os jovens presencistas sabe que está a escrever para todo o século XX e para o século XXI e nesse sentido é muito curioso perceber como é que Pessoa tenta corrigir e moldar a ideia de que os presencistas estavam a formar dele e de todo o primeiro modernismo. O segundo modernismo é relativamente ao primeiro um movimento muito conservador. E a lição de Pessoa do fingimento, da ficcionalização e do jogo lúdico que toda a heteronímia também é, é qualquer coisa que incomoda e começa por perturbar o segundo, os modernistas e todo o segundo modernismo português.

 

Narrador: A revista presença publicou 54 números entre 1927 e 1940. Terminamos aqui a primeira parte do nosso percurso. Sugerimos que apanhe o eléctrico 28 para Campo de Ourique, a partir da rua da Conceição, a rua onde nasceu Mário de Sá-Carneiro. Pode também apanhar um táxi ou ir a pé. Siga as indicações do mapa. A nossa próxima paragem é a Casa

 

Terreiro do Paço / Baixa
Terreiro do Paço / Baixa
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