Vozes: Steffen Dix, Jerónimo Pizarro, Patrícia Nazaré Barbosa, Pedro Teixeira da Mota e Sofia Saldanha

 

Música:

Corale And Serenata by Antonio Russolo.

Album: Dada For Now -A Collection Of Futurist And Dada Sound Works.

Editora: ARK-DOVE 4

Ano: 1985.

 

 

Bibliografia:

Eros e Psique

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).

 - 237.

1ª publ. in Presença , nº 41-42. Coimbra: Mai. 1934.

 

 

 

13. E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia

 

Percurso entre a Casa Fernando Pessoa e o Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique

Narrador: O início do século XX é um período de grande pessimismo. Uma geração de jovens soldados sucumbe nas trincheiras. Ao progresso e entusiasmo europeu do século XIX, seguem-se anos de desilusão e a ideia de homem uno e racional está em crise.

 

Steffen Dix: No início do século XX era um fenómeno muito visível, muito importante para muitos intelectuais e para muitas pessoas da avant garde.

 

Jerónimo Pizarro: Fernando Pessoa foi dos escritores do século XX e do modernismo mundial, talvez o mais, o mais interessado pelas correntes todas que hoje podemos associar ao esoterismo. O rosacrucismo, a escrita automática, a astrologia, a iniciação, o hermetismo, a alquimia, das traduções que fez da Blavatsky, a teosofia, o interesse pela magia. Há talvez uns 10% ou mais do espólio do Fernando Pessoa que tem que ser classificado como esotérico.

 

Steffen Dix: Esta viagem começa principalmente desde jovem, desde ele tem, desde que ele desenvolveu um pensamento próprio e especialmente no final da vida, torna-se cada vez mais visível. E muitos daqueles poemas ou dos escritos do esoterismo datam-se de 30 e 35.

 

Jerónimo Pizarro: E Fernando Pessoa tanto se interessa por partes do esoterismo que eram mais importantes como por outras que são tradições milenárias. E foi um aluno, um aluno muito disciplinado, autodidacta de astrologia, durante muito tempo, e chegou a ter um conhecimento muito, muito adiantado para a sua época, a conseguir fazer cálculos que eram demoradíssimos.

 

Patrícia Nazaré Barbosa: E também existe no seu espólio material relativo a tratados de astrologia, textos sobre astrologia que ele próprio estava a elaborar. Ele foi em busca daqueles que na época estavam a desenvolver essa disciplina. Entrou em contacto com  astrólogos noutras partes do mundo para saber acerca do seu próprio mapa também, ele tinha algumas dúvidas relativamente à hora de nascimento. Eu olho para o mapa e penso assim, a maior obra que este homem fez é aquilo que nós não vimos. E o mapa dele precisamente mostra a intensidade toda a centrar-se em três áreas e  duas delas têm a ver com esse trabalho oculto, com esse trabalho interno e com esse trabalho espiritual.

 

Pedro Teixeira da Mota: Há na espiritualidade de Fernando Pessoa uma grande absorção do cristianismo, porque ele achava que o cristianismo tinha também recebido uma tradição anterior gnóstica e que vinha do paganismo também e dos mistérios que era esse conhecimento da alma humana, da sua natureza, de onde vimos para onde vamos. Depois quais eram as forças da natureza e da alma e como é que nós podemos trabalha-las e depois, finalmente os aspectos da divindade e dos anjos e dos arcanjos e todas essas coisas. Porque o Fernando Pessoa estudou muito.

 

Steffen Dix: Ele teve uma educação católica tradicional, claro, e mas também, por outro lado, teve uma educação inglesa, muito racional, e estas são duas partes que sempre estão um pouco, vamos dizer em contradição nele.

 

Patrícia Nazaré Barbosa: Ele constantemente tinha de fazer um processo de transformação e de distanciamento, e aquilo que é amplamente conhecido é a forma como ele se desdobrou em termos identitários. E esse desdobramento, óbvio, tem tudo a ver com a concentração que existe no seu mapa, na energia de gémeos, toda a duplicidade, toda a multiplicidade. E há um tema de orfandade no mapa, a sensação, ou a noção de que ele estando um pouco distante ou órfão dos seus iguais constantemente os busca. E ele arranja essa estratégia de proximidade como uma criança que brinca com o mundo invisível.

 

Pedro Teixeira da Mota: Eu posso ler-lhe um texto que é um dos textos mais importante dele. Em que ele portanto aí, ele ultrapassa todas as dependências de vidas intermediárias, e diz-nos assim "O conhecimento de Deus não depende do hebreu, nem de anagramas, nem de símbolos. Nem de língua alguma, falada ou pensada; faz-se pela ascensão uni vocal da alma, pelo encontro final da alma consigo mesma, do Deus em nós consigo mesmo". Ele está a por a reencontrar-se a si próprio, a caminhar para o seu essencial.

 

Steffen Dix: Aquela coisa fascinante na obra dele, que é que ele nunca teve a certeza se existe, que estamos a sonhar o mundo que é realidade, e ele praticamente caminhou todas as possíveis. Claro que ele estava a interessar-se pelo esoterismo como um caminho possível de perceber aqueles enigmas, vamos dizer, do mundo.

 

Narrador: Os caminhos esotéricos que Fernando Pessoa percorreu estão espalhados por toda a sua obra. Pessoa não está só neste planeta, nas realidades todas. E quando deixa esta existência terrena, tem certezas e mas também muitas dúvidas. E saí cheio de curiosidade. Quando estiver no Cemitério dos Prazeres pode ouvir o episódio seguinte. O jazigo de família de Fernando Pessoa é o 4371 Dirija-se para lá.

 

Percurso entre a Casa Fernando Pessoa e o Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique
Percurso entre a Casa Fernando Pessoa e o Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique
Percurso entre a Casa Fernando Pessoa e o Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique
Percurso entre a Casa Fernando Pessoa e o Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique