14. Não sei o que o amanhã trará.

 

Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique

Narrador: O Cemitério dos Prazeres foi criado no século XIX, após um surto de cólera. Em 2016, os restos mortais de Ofélia Queiroz foram para aqui trasladados. Fernando Pessoa também por aqui passou.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: A minha mãe dizia sempre, "o Fernando morreu de cirro." O cirro era cirrose, porque ele bebia, mas nunca ninguém o viu bêbado nem nada.

 

Manuela Nogueira: Foi o primeiro morto da minha vida, e portanto foi uma coisa horrível.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: Nessa altura estávamos a viver na nossa casa em São João do Estoril. Ele continuou a viver na casa de Campo de Ourique, mas ia visitar a família. E nós, eu e a minha irmã, estávamos sempre à espera dos presentinhos que ele trazia e aquelas coisas.

 

Manuela Nogueira: E depois quando se chegou àquela data da minha mãe fazer anos, que era o dia 27 de Novembro o Fernando mandou um telegrama.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: A minha mãe tinha escorregado lá no jardim ou assim, tinha partido uma perna. E entretanto tinha havido uma espécie de um ciclone na nossa casa de São João do Estoril e aquilo tinha sido de tal modo que tinham arrancado os fios de telefone, e tinham rebentado ou assim.

 

Manuela Nogueira: E a minha mãe virou-se para o meu pai e disse: “Ai Chico”, o meu pai era Francisco, “Ai Chico aconteceu qualquer coisa ao Fernando, porque o Fernando ele mandou-me um telegrama e não me aparece”. E o meu pai meteu-se no comboio e veio a correr a Lisboa. E bateu à porta das Donas Viginias Sena Pereira, que moravam ao nosso lado e que eram da família do Jorge de Sena. Porque na porta do Fernando ninguém respondeu à porta. E a D. Virgínia, uma delas “Ah o Fernando foi para o hospital ontem, porque não se sentiu bem”. E o meu pai foi a correr para o Hospital de São Luís e foi assim que viu que ele não estava bem. Não estava bem, mas também não estava assim tão mal que se fosse pensar que ia morrer, não é? O meu pai veio-se embora, sossegou a minha mãe. “Que ele realmente está a ser tratado, estava com uma colicazinhas' e essas coisas que se dizem. E pronto, e depois morreu logo. Aquilo durou muito pouco tempo. A minha mãe fazia anos 27 e ele morreu a 30.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: Devia ter feito uma pancreatite aguda. A pancreatite aguda é uma coisa que mesmo actualmente com as actuais análises e essas coisas todas às vezes é difícil de diagnosticar. E como não se fez autópsia.

 

Manuela Nogueira: Foi um desgosto enorme para a minha mãe, enorme. E eu, quando percebi que o tio Fernando tinha morrido. Eu, que estava no jardim à frente da minha casa que ainda existe, não consegui ir para casa, não consegui. E então a empregada que lá estava, lembro-me perfeitamente, era assim uma mulher muito gorda, veio chamar-me várias vezes ‘Menina, venha almoçar. Menina, venha almoçar” e eu não quis ir. Depois mais tarde é que percebi, eu não queria enfrentar o desgosto da minha mãe. E depois, enfim, depois como tudo, tem que se aceitar. O funeral ainda teve bastante gente. Homens, porque naquela altura não se usavam mulheres, as mulheres não iam a funerais. As mulheres iam à igreja rezar pelo morto. E se vocês virem a fotografia dele na urna a sair da igreja só vêm homens.

 

Narrador: O caixão saiu da capela do Cemitério dos Prazeres e foi para o jazigo de família, onde estava a avó Dionísia.

 

Pablo Javier Pérez López: Quando falamos em Pessoa e falamos na morte, eu, o primeiro que eu penso é que ele foi um suicida. Um suicida no sentido de, dentro da raça de poetas, e poetas pensadores, como o próprio Pessoa, portugueses, que foram suicidas, muitos deles, Manuel Larangeira, Florbela Espanca, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, muitos, o próprio Pessoa foi um deles e foi um suicida e um poeta pensador como foi o seu grande mestre Antero de Quental, tal como alguns dos seus proto-heterónimos e dos semi-heterónimos, como por exemplo, o Barão de Teive. O Barão de Teive escreve a Educação do Estóico, que à partida é a única obra do Barão de Teive, onde explica porque é que não há motivos para continuar a viver e porque decide suicidar-se. Mas ao mesmo tempo também penso que o Pessoa está com vontade de encontrar um sentido na vida, não encontra o sentido no amor, ou não tenta encontrar o sentido no amor, com a Ofélia, porque tem muita vontade de acabar uma obra muito bem-feita, muito bem arrumada, perfeita, mas não consegue também porque é muito fragmentária, tal como falamos. Portanto, num mundo, numa vida onde não tem sentido, onde não encontra cómodo, a morte aparece como libertadora. E está presente em toda a sua obra, mas mais profundamente na segunda parte da sua obra.

 

Jerónimo Pizarro: Não sei, eu sinto que nunca teve medo da morte, que sempre admitiu que a morte pudesse ser uma porta para, para outros mundos.

 

Steffen Dix: Se imaginamos ou se achamos que a nossa vida não é realidade, que é um sonho, também a nossa morte também é um sonho, realmente não existe. Ou também pode depois da morte pode continuar numa outra vida, numa outra reincarnação e esta é uma coisa interessante em Pessoa, ele conhecia todas estas teorias e todos os pensamentos. E Pessoa estava muito interessado no assunto.

 

Pablo Javier Pérez López: E chega a uma altura em que já não tem ilusões, não tem vontade de continuar, e penso que é nessa altura quando ele começa a beber muito e quando ele já não tem medo da morte, penso que ele morre sem medo e que ele sabe que vai morrer, porque é um suicida lento e lúcido. Pedir os óculos antes de morrer, é uma grande metáfora da lucidez, não é?, de como quer entrar nesse outro mundo.

 

Steffen Dix: No último dia, sabendo perfeitamente que vai morrer, aquela última frase eu acho que explica tudo "I know not what tomorrow will bring", ou seja, eu não sei o que amanhã vai acontecer, sabendo perfeitamente que vai morrer, eu acho que isso explica tudo.

 

Pablo Javier Pérez López: Há algumas afirmações dele, como aquela onde ele disse: "Se quiserem fazer uma biografia", qualquer coisa assim, como "só tem duas datas, a do nascimento e da morte”. Só que o Pessoa tinha vida, era um homem. Há um Pessoa homem e um Pessoa autor dos seus livros. Mas há o homem que costuma ir à engomadoria e pedir as camisas muito bem engomadas, muito brancas. Que tem amigos, que fala com as pessoas, que tem um trabalho, que costuma dactilografar à noite os seus poemas no escritório, que vai ao Abel encher o depósito, o Pessoa que vai de eléctrico acompanhar a Ofélia até à porta da casa da sua irmã. E o Pessoa que está pensar, a escrever, a ler, muito exaltado enquanto as pessoas dormem, e a olhar pela janela e ver lá fora Lisboa. E também o Pessoa como morador de Lisboa, porque sendo que Lisboa é uma cidade que ainda conserva a sua essência, no sentido histórico, nas suas ruas, nos seus lugares, e conserva as coisas antigas, não é?, à moda antiga, dá para perceber e imaginar o Pessoa a caminhar por estas ruas de hoje. E é isso que eu queria dizer, a obra e a vida é uma coisa quase completamente única, mas o Pessoa foi homem, e isto é que interessa.

 

Narrador: Pessoa ficou no Cemitério dos Prazeres, no jazigo de família durante 50 anos. Em 1985, a 13 de Junho foi trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos e, para já, ainda lá está, na ala norte do claustro inferior. Estamos quase a terminar este percurso pessoano. O próximo episódio não tem uma localização associada. Pode ouvi-lo onde quiser.

 

 

Vozes: Luís Miguel Nogueira Rosa Dias, Manuela Nogueira, Pablo Javier Pérez López, Jerónimo Pizarro, Steffen Dix e Sofia Saldanha

 

Música:

Tout se transforme (réinterprété par johnny_ripper) by julsy

Free Music Archive / License – Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported (CC BY-NC-SA 3.0).

 

Bibliografia:

I know not what tomorrow will bring; Não sei o que o amanhã trará; Tradução livre de Sofia Saldanha: Traduzido do inglês para o português.

 

 

Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique
Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique
Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique
Cemitério dos Prazeres / Campo de Ourique