Vozes: Fernando Cabral Martins, Manuela Nogueira, Teresa Rita Lopes, Rita Patrício, António Mega Ferreira, Richard Zenith, Steffen Dix, Antonio Cardiello, Patrícia Nazaré Barbosa e Sofia Saldanha

 

 

 

Bibliografia:

Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, Poesias. Edição e posfácio Richard Zenith, Lisboa, Assírio e Alvim, 2003.

 

15. Viver não é necessário: o que é necessário é criar

 

O espólio de Fernando Pessoa

Narrador: Pessoa morre. Deixa uma arca cheia de papéis. São cerca de 30 mil e estão dispostos numa arrumação ilusória.

 

Fernando Cabral Martins: Mas não havia uma organização no sentido em que nada estava completo, nada estava fechado, penso eu, penso eu, porque ninguém sabe, na verdade, o que é que estava nessa arca, e nesse armário e nessa mala, e não sei quê, onde as coisas estavam guardadas.

 

Manuela Nogueira: A minha mãe recebia constantemente pessoas a indagar sobre o irmão. E depois houve séries de pessoas, nos vários sítios que estivemos a viver, a mexer, a mexer, a mexer e ela ia pela casa fora fazer o que lhe apetecia, oferecia lanches a toda a gente que vinha, porque a minha mãe era, tinha a mania inglesa, five o'clock tea, toda a gente tinha que tomar o five o'clock, sempre, ainda eu hoje em dia, também sou muito five o'clock. E a minha mãe saía para ir à cozinha, para tratar do five o'clock tea, deixava aquela gente toda ao pé dos livros, ao pé de tudo. Apareceram livros cortados com lâminas, com a assinatura tirada, montes, que estão na casa Fernando Pessoa. Livros roubados, páginas arrancadas, muita coisa, só vimos isso mais tarde quando se saiu cá de casa. Umas coisas saíram todas do sítio, outras desorganizaram-se todas, mas de qualquer ele guardava muita coisa. Então nós temos um papelinho, em que na véspera de ele morrer, ou antevéspera, antes de ir para o hospital, 3 dias antes, a pedir um garrafão de vinho, uma tábua, uma coisa de sabão, e não sei que mais, e ele guardou esse papelinho. Quer dizer, tinha a mania de guardar papelinhos. O que fez uma baralhada nos intelectuais que se seguiram, não é?

 

Narrador: Os protagonistas da Presença foram os primeiros a editar o que tinha ficado na arca.

 

Teresa Rita Lopes: Nessa altura não havia fotocópias, sabe que isso muda muito as coisas, é muito engraçado. De maneira que, foram também pela via mais fácil. Pegaram no que estava escrito à máquina, punham na tipografia e muitas vezes não voltava, porque punham directamente os originais. De maneira que o Pessoa foi muito mal publicado, pessimamente publicado e esteve assim, esteve assim até os anos 60.

 

Rita Patrício: São edições que hoje reconhecemos de muito datadas, muito censuradas, muito lacunares, mas foram as primeiras e foram aquelas que deram a conhecer Pessoa. São edições que hoje para nós têm uma forte dimensão histórica, e são edições que têm o grande mérito de mostrar que Pessoa é muito mais que tinha aparecido até então.

 

Teresa Rita Lopes: Esteve para desaparecer esse espólio. Porque a família fez venda à Fundação Gulbenkian, que achou que não estava vocacionada para comprar espólios. Eu soube disso em Paris, e em Paris o director da casa, da Fundação Gulbenkian que sabia que eu andava a estudar o Pessoa, que andava a fazer a minha tese sobre ele, avisou-me. Então eu fiquei num terramoto mental, não é? E avisei imediatamente o meu amigo António José Saraiva, que estava exilado como eu, por questões políticas, claro, e que, imediatamente, telefonou ao mano dele, que era, era ministro, foi o último ministro do Salazar, da Cultura, que era o José Hermano Saraiva, não é? E então o José Hermano Saraiva que era sensível, para já era muito amigo do irmão e depois era sensível às questões culturais, embora eles estivessem politicamente, ideologicamente em campos opostos. Mas foi ele, ele costumava dizer isso na televisão e dizia "perguntem à Teresa Rita", é verdade sim senhor, é graças a ele, ao último ministro do Salazar, que nós devemos o ter o espólio cá. Porque a família como, e eles confirmaram-me isso, como a Gulbenkian não quis comprar, já estava a tratar, com ingleses, que iriam adquirir o espólio.

 

Narrador: José Hermano Saraiva manda inventariar o espólio, que é finalmente adquirido pelo Estado Português em 1979, já depois da queda do regime. Dois anos mais tarde é incorporado na Biblioteca Nacional.

 

António Mega Ferreira: De repente em 1981 a Biblioteca Nacional recebeu aquele monstro informe que era o espólio do Fernando Pessoa. O problema do espólio do Pessoa é o problema do próprio Pessoa.

 

Richard Zenith: Na mesma folha pode ter, num canto, uma prosa sobre, não sei, uma, as suas ideias sobre um assunto político, noutro canto uma ode de Ricardo Reis, noutro canto um poema de Alberto Caeiro, tudo escrito no mesmo dia.

 

António Mega Ferreira: Para alguém poder fazer um trabalho sério, profundo e cientificamente inatacável sobre o espólio do Pessoa tinha que ler o espólio todo, tarefa desumana e impossível, são dezenas de milhares, não é de textos, é de fragmentos, de pequenas anotações, de não sei quê, era preciso ter lido tudo. Não sei se alguém conseguiu ler tudo, eu tenho dúvidas que alguém consiga ler tudo.

 

Narrador: Para além da dificuldade em lidar com a dimensão da obra, há ainda a dificuldade em decifrar a caligrafia de Fernando Pessoa.

 

António Mega Ferreira: Porque a escrita dele, nos seus melhores momentos, isto é, durante o dia ainda é legível, mas por vezes aquilo à medida que a noite avança, torna-se tudo muito mais complicado. E portanto há problemas dessa natureza. Agora é a vastidão do espólio do Pessoa que torna aquilo num poço sem fundo, não é?

 

Steffen Dix: Isso realmente significa a vivacidade hoje em dia de Fernando Pessoa, hoje em dia sempre aparecem novas edições, diferentes edições, nós podemos praticamente criar o nosso próprio Pessoa e podemos continuar aquela vida de Pessoa como o Tabucci fez, como o Saramago fez, como também o Luís Borges fez com a sua pequena carta, nós podemos continuar a vida, a obra de Fernando Pessoa da nossa maneira. Hoje em dia podemos quase dizer que é uma grande sorte que ele deixou as coisas na arca assim, se nós tivéssemos uma obra já feita, uma obra completa feita de algumas interpretações e, seria um clássico, mas hoje em dia continua sempre viva e até quase mais viva do que antes da sua própria morte.

 

Antonio Cardiello: Mas se isso for tudo propositado? Se esta fragmentação tão complexa, tão, onde portanto não se encontra a saída, for mesmo pensada, for mesmo construída, então estamos perante um génio que a humanidade nunca teve.

 

Narrador: Fernando Pessoa fez cálculos astrológicos e concluiu que em 2198 iria aparecer uma grande figura para a língua portuguesa e para a ideia de quinto império. E mais, concluiu que essa figura era ele próprio reconhecido.

 

Patrícia Nazaré Barbosa: Pessoa também veio do futuro e só no futuro ele poderá ser compreendido. Quando Pessoa diz que só vai ser compreendido em 2198, nós temos uma percepção do tempo que ainda necessitamos para processar esta tendência evolutiva como um todo, portanto a humanidade tem muito trabalho para fazer, e Pessoa, de certa forma, trazia essa visão do futuro e esse entendimento e ele não tinha com quem falar disso, não estou a falar de uma pessoa, mas, ele em termos de indivíduo social estava a falar para surdos. Então, pode haver material, dentro daquilo que ele deixou que nos permita também aprender com ele e desenvolvermos colectivamente esta caminhada evolutiva. E então, o contributo que ele deu não está fechado, ainda está operativo, porque ainda não completou aquilo que veio fazer.

 

Narrador: Fernando Pessoa, um ousado viajante. Um homem que já não sendo de carne ainda se passeia por esta Lisboa e fora dela. E é interessante pensarmos no que pode aí vir, que também vêm de Fernando Pessoa.

 

O espólio de Fernando Pessoa
O espólio de Fernando Pessoa
O espólio de Fernando Pessoa
O espólio de Fernando Pessoa