Vozes: Richard Zenith, Mahatma Gandhi, Teresa Rita Lopes, Fernando Cabral Martins, Pedro Teixeira da Mota, Jorge Louraço e Sofia Saldanha.

 

Música:

Música original a partir de Un soir à Lima, Op.99 de Félix Godefroid: Carolina Machado e Lia Magalhães.

 

Bibliografia:

Un Soir à Lima

PESSOA, Fernando, Poemas de 1934-1935, edição de Luís Prista, Lisboa, INCM, 2000, pp.232-241

 

2. Da África ampla onde o luar está

Praça Luís de Camões / Chiado

Narrador: Esta é na Praça Luís de Camões. Luís de Camões foi um poeta português renascentista. É autor de Os Lusíadas, a epopeia que versa sobre a expansão marítima portuguesa. No centro da narrativa está a viagem de Vasco da Gama à Índia, que abre uma rota de mar até aí

intransponível. Como Pessoa, Camões parte num barco à descoberta. Fazem percursos muito idênticos: Camões em meados do século XVI e Pessoa no final do século XIX. O encontro entre os dois durará o tempo da história de Portugal, o tempo da poesia.

 

Richard Zenith: Em Durban Pessoa estudava muito, a sua vida era sobretudo nos livros. Pessoa estudou numa escola de freiras francesas com algumas irlandesas. E depois passou a Durban HighSchool, que era uma escola notável. Os professores vinham quase todos de Inglaterra, o nível era muito rigoroso. Acontece que Durban, como era uma colónia tinha mentalidade de querer ser muito inglês, então, de certo modo era mais inglês do que a própria Inglaterra. A África onde Pessoa viveu era e não era África. Porque Durban, a cidade, tinha mais ou menos metade brancos europeus, 25% indianos, que trabalhavam muito no comércio, e uma quarta parte da cidade era zulu. Havia uma segregação de facto, então as relações com os africanos eram relações de trabalho, que eram os domésticos que estavam em casa e também na casa dos pais do Pessoa. Um indiano que estava lá quando Pessoa chegou era Gandhi, que lá que começou o seu movimento de protesto contra os ingleses a prol dos direito dos indianos. Pessoa escreveria umas poucas páginas muito elogiosas de Gandhi, dizendo que era o único homem verdadeiramente grande no mundo.

 

Narrador: Pessoa acabou os estudos mais cedo que os colegas. E foi por isso que passou um ano em Portugal. No regresso a Durban estuda à noite no Commercial School. Em simultâneo, prepara-se para o exame de admissão à universidade. Pessoa quer entrar nos sistema universitário britânico. Sonha com ir para Inglaterra.

 

Teresa Rita Lopes: O rapaz como tinha sido o melhor classificado do seu curso tinha direito a ir continuar os estudos na Inglaterra, mas não lhe deram, arranjaram um pretexto de ele ter estado um ano sem estudar. Portanto, o rapaz, que se preparava para ser um poeta, um escritor da língua inglesa, em língua inglesa, de repente viu todos os seus projectos mudados.

 

Fernando Cabral Martins: Ele já escrevia desde muito novo, ele escrevia de uma forma consistente assim já, em quantidade, em quantidade apreciável desde de 1903, 1904 Agora tem uma característica que é o facto de ser toda escrita em inglês. O primeiro texto que ele publica, em Durban, chamado 'The Miner's Song', um poema em inglês, no jornal de Natal, The Natal Mercury, é assinado por um poeta fictício chamado Karl P. Effield e esse poema é apresentado por um tal W.W. Austin, um viajante que conheceu aquele poeta, e que trouxe o poema e que apresenta o poeta. Ora, isto é exactamente o mecanismo da heteronímia, um poema que corresponde a uma personagem de poeta completamente autónoma e que tem uma biografia associada, portanto está todo o mecanismo já montado e estamos a falar de 1903.

 

Narrador: Mas o inglês de Pessoa era o inglês dos livros, o inglês de uma colónia. Não era a sua língua natural.

 

Richard Zenith: Era um rapaz tímido, tinha os seus amigos da escola, mas não tinha assim imensa vida social fora de casa. Agora dentro de casa havia animação, não é?, porque a mãe de Pessoa e o seu segundo marido tiveram vários filhos.

 

Richard Zenith: É curioso que Pessoa que viveu em África durante 9 anos menciona África muito pouco na sua obra. Poucos meses antes de morrer, Pessoa ouviu na rádio uma música Un Soir á Lima, que a sua mãe tocava no piano em Durban, e então todas as memórias lá da África voltaram e Pessoa escreveu um longo poema, fragmentário, mas também não tanto, a lembrar as cenas lá da casa, ele na casa com a mãe a tocar, a mãe já com cabelo grisalho, e com o seu padrasto, com a sua irmã, os seus irmãozinhos.

 

Pedro Teixeira da Mota: O Fernando Pessoa diz, está a sentir aquilo tudo e diz "Como eu gostaria de ter isto numa gaveta que tivesse aqui e que fizesse desabrochar isso tudo."

 

Fernando Pessoa:

Eu à janela

Do nunca mais deixar de sentir,

Nessa sala, a nossa sala, quente

Da África ampla onde o luar está

Lá fora vasto e indiferente

Nem mal nem bem

E onde, no meu coração

Mãe, mãe Tocas visivelmente,

Tocas eternamente

Un Soir à Lima.

 

Richard Zenith: Portanto, estava muito presente em Pessoa essa infância, mesmo se ele não falava muito.

 

Narrador: Em 1905 Fernando Pessoa embarca no Herzog com destino a Portugal. Viaja pelo lado ocidental de África. Chega a Lisboa em Setembro e fica a morar com a tia Anica, irmã da mãe, na Rua de São Bento. Seguimos agora para o Café A Brasileira, no Largo do Chiado.

 

Praça Luís de Camões / Chiado
Praça Luís de Camões / Chiado
Praça Luís de Camões / Chiado
Praça Luís de Camões / Chiado