Vozes: Rita Patrício, António Mega Ferreira, Teresa Rita Lopes, Manuela Parreira da Silva, Richard Zenith, José Barreto, Jorge Louraço, Manuela Nogueira, Pablo Javier Pérez López, Fernando Cabral Martins e Sofia Saldanha

 

Música:

Excerto de Fado do Embuçado (letra de Gabriel de Oliveira e música de José Marques "Piscalarete". Criado para o repertório de Natália dos Anjos.)

 

Bibliografia:

LISBON REVISITED (1926)

26-4-1926

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  – 249-251.

1ª publ. in Contemporânea, 3ª série, nº2. Lisboa: Jun. 1926.

 

 

Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, Poesias. Edição e posfácio Richard Zenith, Lisboa, Assírio e Alvim, 2003.

 

3. Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo

Café A Brasileira / Chiado

Narrador: Deve estar no Café A Brasileira, no Largo do Chiado. Há uma estátua de bronze na esplanada. Esse homem sentado à mesa de café é Fernando Pessoa. A Brasileira foi fundada em 1905, o mesmo ano em que Pessoa regressou a Lisboa.

 

Rita Patrício: Pessoa chegou a Lisboa com 17 anos, vindo de um passado anglófono, de uma educação inglesa e aterra, podemos dizer, em Lisboa, como um estrangeiro. E rapidamente Lisboa se torna o seu mundo.

 

António Mega Ferreira: Ele voltou a Portugal, a família, digamos, materna e os irmãos, etc., ficaram na África do Sul e portanto o Fernando Pessoa está em Lisboa um pouco sozinho, um pouco isolado, e é um adolescente, convém não esquecermos isto.

 

Narrador: Lisboa é uma cidade peculiar. Imagine. Varinas de aventais por cima das saias cruzam-se com burguesas de chapéus de abas largas e renda a tapar a cara. Ouvem-se os pregões dos ardinas, meninos com bonés e calças remendadas. Passam limpa-chaminés, sujos de fuligem. Lá ao fundo, no Tejo, a agitação dos barcos.

 

Teresa Rita Lopes: Quando ele chegou em 1905 o país estava em muito mau estado sob todos os pontos de vista.

 

Manuela Parreira da Silva: Pobreza, atraso, um certo desbaratar das finanças públicas, e portanto era um período que também era muito propício ao aparecimento de um certo messianismo, a necessidade de que aparecesse alguém para salvar a pátria. Vivíamos na monarquia, no final da monarquia.

 

Narrador: É uma época de grande mudança. A classe intelectual fervilha de novas opiniões. Os ideais republicanos começam a ganhar terreno e há um forte sentimento anticlerical.

 

Richard Zenith: Quando Pessoa voltou eu acho que ainda não era muito politizado. Mas rapidamente, tornou-se um republicano fervoroso.

 

José Barreto: E começa a considerar que é necessária uma revolução. E até pretende integrar-se nesse movimento, não associando-se, porque ele é extremamente individualista, sempre foi, mas escrevendo uma obra, uma obra de análise da história e da sociedade portuguesa, que seria para publicar em Inglaterra, mas depois muda de ideias e já acha que essa obra deveria ser publicada em Portugal, e portanto sublinhando a necessidade de uma redenção, uma redenção de Portugal.

 

Richard Zenith: Houve depois o regicídio em 1908, assassinaram o rei e depois em 1910 veio finalmente uma revolução, e os republicanos derrubaram a monarquia. Pessoa estava completamente a favor deste movimento, mas rapidamente ficou desiludido. Não gostava da ideia de violência.

 

José Barreto: Entre 1905 e 1910 há outra coisa que acontece muito importante na vida do Pessoa, é que ele frequenta, na altura não se chamava faculdade, chamava-se Curso Superior de Letras.

 

Fernando Pessoa: 28 de Março. Faltei ao curso. Amanhã também vou faltar. Tenho um teste de Geografia e não sei nada do assunto. Detesto todo o trabalho imposto.

 

José Barreto: Ele tinha muito má opinião acerca de alguns professores, e não gostava dos colegas, não gostava daquilo, não gostava do curso. Interessou-se sobretudo pelas cadeiras de tema filosófico e assim, história e filosofia. Depois em 1907 há uma greve de estudantes e ele aproveita essa ocasião para abandonar o ensino.

 

Manuela Nogueira: O meu avô ficou possesso. Porque sabia que ele era inteligentíssimo. E ele pensar que ele não ia tirar um curso superior? Bem, eu tenho uma carta ainda, está um bocado escondida essa, nunca ninguém publicou, nem vai publicar, porque é uma zanga enorme que a minha avó e o marido tiveram por ele desistir do curso de letras.

 

Fernando Pessoa: 20 de Abril. As férias continuam. Biblioteca Nacional; comecei a ler “A Crítica da Razão Pura, numa tradução francesa de Barni. Escrevi alguns pequenos poemas. Pensei profundamente na minha metafísica.

 

Pablo Javier Pérez López: Portanto há uma altura em que Pessoa mais do que literatura, mais do que Shakespeare, mais do que outros autores, o que está a fazer em Lisboa, é ler filosofia, a todas as horas, em todo o momento. Porque tem aquela vontade de procura de sentido na vida. E também é o momento da sua vida em que ele próprio, escreve também no seu diário: "Tenho de ler mais poesia de modo a apagar ou a ir em contra deste conjunto tão forte de leituras filosóficas, e se converte de alguma maneira, não é filósofo académico, se não é poeta e pensador ao mesmo tempo. O diálogo entre o pensamento e a poesia, que de facto o instinto dramático e o instinto do trágico que  está na heteronímia e na obra toda dele, também no Livro do Desassossego, por exemplo.

 

Fernando Pessoa: 11 de Maio de 1906. Ter dinheiro urge, preciso de enviar os meus escritos para Inglaterra. É uma pena não ter máquina de escrever. Tentarei comprar uma com o dinheiro que receber.

 

José Barreto: Entre 1905 e 1908 ele escreve essencialmente, ele escreve sobretudo em inglês, poesia e prosa. Só por volta de 1909, 10 é que ele começa talvez a escrever mais português.

 

Fernando Cabral Martins: Ele não tinha lido a literatura portuguesa, só tinha lido a literatura inglesa. E é quando regressa que começa a interessar-se obviamente por ler a literatura portuguesa e faz esse percurso muito pela BN e também por via de um encontro privilegiado com um tio, Henrique Rosa, que é também poeta, que aliás ele há-de publicar na revista Athena e que lhe passa muito do seu entusiasmo e também muitos dos seus conhecimentos e leituras e que é uma personagem importante neste momento.

 

Narrador: Nessa altura ainda mora com familiares. Circunstância que está prestes a alterar-se. Disso falaremos no episódio seguinte. Vamos agora descer a Rua Garrett em direcção ao Rossio, pela Rua do Carmo.

 

Café A Brasileira / Chiado
Café A Brasileira / Chiado
Café A Brasileira / Chiado
Café A Brasileira / Chiado