Vozes: Teresa Rita Lopes, Richard Zenith, Jorge Louraço, António Mega Ferreira, José Barreto, Fernando Cabral Martins, Luís Miguel Nogueira Rosa Dias, Manuela Nogueira, Pablo Javier Pérez López e Sofia Saldanha

 

 

Bibliografia:

O Íbis, ave do Egipto, Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 24.

 

 

 

4. O Íbis, ave do Egipto

Percurso entre a Brasileira e o Rossio pela Rua do Carmo / Baixa - Chiado

Narrador: Estamos no coração da Lisboa pessoana. Vamos descer o Chiado em direcção ao Rossio, pela Rua do Carmo.

 

É 1909. Fernando Pessoa recebe uma herança. Abandona a casa das tias e vai morar sozinho pela primeira vez. Aluga um apartamento na Rua da Glória.

 

 

Teresa Rita Lopes: Teve que esperar pelos 21 anos, nessa altura a maioridade era só aos 21 anos, para receber uma herança da avó paterna, da avó maluca, e pensou instalar-se com uma tipografia.

 

Narrador: Viu um anúncio no jornal O Século de uma tipografia que estava à venda em Portalegre. Foi lá consumar o negócio. Chamou-se a tipografia Empreza Íbis, Typographica e Editora – Oficinas a Vapor

 

Richard Zenith: A atracção de Pessoa para com Íbis não é nada inocente, não tem a ver, porque achava que era muito bonito.

 

Fernando Pessoa:

O Íbis, ave do Egipto,

Pousa sempre sobre um pé

(O que é

Esquisito).

É uma ave sossegada

Porque assim não anda nada.

 

Richard Zenith: Íbis é um pássaro, é aquele pássaro que gosta de ficar na água só num pé. E esse símbolo era um símbolo, porque Íbis era um pássaro sagrado, um deus egipciano Thoth, e Thoth era o escriba dos deuses, então era inventor da escrita, e também tinha a ver com a magia.

 

António Mega Ferreira: E depois há um mistério, é que a Tipografia Íbis parece nunca ter funcionado. Não é exactamente assim.

 

Teresa Rita Lopes: Imprimiu, sim senhora, um jornal lá do Algarve, O Povo Algarvio, o jornal de Loulé.

 

José Barreto: Mas a ideia dele era imprimir os seus próprios textos, não dependeria de ninguém e poderia publicar os seus textos em Portugal e em Inglaterra.

 

Teresa Rita Lopes: Mas olha aquilo não foi por diante.

 

Fernando Cabral Martins: Passados poucos meses fecha, encerra com falência absoluta e depois tem que vender as máquinas e pronto, e passa para outra.

 

António Mega Ferreira: Depois da Íbis há uma carta da mãe para ele em que a mãe lhe diz '... Tu não tens, Fernando tens que ter cuidado, em meter-te nessas coisas, olha o que te aconteceu com a Íbis', mas não funcionou claramente, porque ele não tinha nenhuma aptidão para o negócio, quer dizer, ele tinha jeito para aquilo que nós sabemos, que era para escrever.

 

Narrador: A Íbis foi o primeiro de uma série de negócios malsucedidos. Mas Pessoa tinha um trunfo que poucos tinham no Portugal de há 100 anos.

 

António Mega Ferreira: Há 100 anos, saber línguas em Portugal era um instrumento no mercado de trabalho importantíssimo e ele sabia muito bem línguas. Sabia o inglês, claro, e além disso o francês. A partir de 1908, portanto ele tinha 20 anos, 20, 21 anos ele começa a trabalhar em diversos escritórios como correspondente em línguas estrangeiras, para quê? Para assegurar a correspondência com o mercado internacional, com as empresas internacionais, etc., e portanto ele muito cedo começa a trabalhar. Aliás de 1908 uma coisa muito, um documento extraordinário, que está nos diários de 1908, que é um plano para a vida. Nesse plano para a vida ele calcula quantas, quantas avenças é que tem que ter em quantos escritórios para lhe darem x dólares por mês, que é o que lhe permite dedicar-se à escrita. Ou seja, aos 20 anos de idade Fernando Pessoa sabia muito bem o que é que queria ser, queria ser escritor.

 

José Barreto: Ele era um freelancer, ele era um freelancer foi sempre um freelancer, trabalhou para dezenas de empresas comerciais da baixa de Lisboa. A família em Lisboa arranjou-lhe empregos em empresas inglesas, mas é claro, ele tinha que ser um funcionário permanente, não é?, teria que despedir-se da sua liberdade e teria que ser uma pessoa de horários, de modo que rejeitou vários empregos que poderiam também ter resolvido para sempre o problema material dele, o problema existencial mas que iam impossibilitar os sonhos dele como artista, como escritor, a enorme ambição, é preciso dizer que é uma enorme ambição. É preciso dizer que era uma enorme ambição que o Fernando Pessoa jovem tinha já de vir a ter uma grande obra, que o ia tornar no grande escritor da sua geração e da sua época.

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: Portanto ele ganhava pouco, andava sempre aflito. Depois ele era do género, tinha 10 escudos no bolso, se tivesse um amigo que estava aflito "Eh pá, dá-me aí 10 escudos", ele dava os 10 escudos, ficava sem nada.

 

José Barreto: Morou em quartos, mal alimentado. Pedia muito dinheiro emprestado. Andava com castanhas no bolso, enganava a fome, de vez em quando estava na célebre tertúlia do café Montanha, em que ele estava a conversar com os seus os seus colegas tertulianos e de repente metia a mão do bolso e tirava uma castanha. E quem relata isto, o amigo dele o Francisco Peixoto Bourbon, afirma mesmo que ele passou fome, também.

 

António Mega Ferreira: Eu, eu, eu acho que ele passava dificuldades, porque gastava o dinheiro todo. Ele nunca viveu na miséria. Temos, por exemplo, uma factura de roupa comprada no Lourenço & Santos, que era um grande alfaiate de Lisboa, da baixa, dos Restauradores, tinha duas lojas nos Restauradores, hoje só tem uma. Logo nos diários de 13 ou de 15, nesses diários, por exemplo, ele diz uma noite em que ele anda a passear pela baixa e vai à Pitta. A Pitta era a Camisaria Pitta, que era, ainda existe hoje, que era a camisaria mais elegante de Lisboa, quer dizer a mais exclusiva que havia. Ele era muito sensível, por exemplo, à forma de vestir, à elegância no vestir, à roupa, essas coisas todas.

 

Manuela Nogueira: Era uma pessoa cuidada com a sua pessoa, muito cuidada. Tomava banho com água fria. Tinha a camisa branca sempre impecável. A D. Irene era a lavadeira, e ela entrava pela porta da Rua Coelho da Rocha, tocava e vinha com um cesto, e vinha com um saco, extraordinário, um saco, em, pano-cru, que vocês agora nem sabem o que é que é, pano-cru, debruado a vermelho com fitilho a vermelho, todo ele debruado e um F e um P, Fernando Pessoa. E depois ela entrava com aquele saco e dizia ‘Está aqui a roupa senhor Pessoa’, porque ele sempre teve aquela D. Irene para tratar das roupas. Depois, andava sempre impecável, com gravata, mas mais lacinho, ele usava muito mais era o lacinho preto, às vezes era cinzento-escuro, mas era tudo assim cinzento. E chapéu, chapéu, hoje em dia põe-no sempre com chapéu, mas eu lembro-me dele é sem chapéu, porque em casa não estava de chapéu, não é?

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: Pronto, tinha aquela figura sóbria. Mas, eu penso que isso terá tido uma certa influência também inglesa.

 

António Mega Ferreira: Depois era uma pessoa que gastava fortunas em livros, não é?, fortunas, aliás gastava, e depois andava a vender os livros para conseguir ir buscar o dinheiro.

 

José Barreto: Ele raramente saía de Lisboa, rarissimamente saía de Lisboa e mesmo de Lisboa do centro. O Fernando Pessoa tinha aqueles hábitos, não é?, era um homem de hábitos e depois o hábito da bebida, não é? Ele trabalha naquelas empresas, não é?, naqueles escritórios comercias, são dezenas e dezenas de empresas que, há o testemunho dos papéis timbrados que ele usou para escrever depois e ele às vezes estava a trabalhar, levantava-se e dizia "venho já" e lá ia ele ao Abel, bebia um copo ou 2 e voltava para o trabalho, portanto isso era uma coisa que fazia parte do dia-a-dia dele, também, não é?

 

Pablo Javier Pérez López: E era uma pessoa com muito humor mesmo, muito humor. O facto de ele ir para, ao Abel, aquela bodega, já conhecida no flagrante de litro, a beber os seus copos e quando ao voltar o filho do seu patrão, o Moutinho de Almeida perguntar-lhe, "Então como consegue beber tanto, como aguenta tanto, parece uma esponja" e ele disse: "Uma esponja não, uma fábrica de esponjas com anexo ao lado". Portanto, aquele humor só pode existir nas pessoas que são trágicas, eu penso isto seriamente.

 

José Barreto: Depois no fim da vida ele tenta voltar atrás e tenta arranjar um emprego permanente e não consegue. E ele aí fica infelicíssimo, fica infelicíssimo porque ele já desejava muito essa estabilidade para poder depois dedicar-se nas horas vagas às suas actividades literárias.

 

Narrador: Mas isso foi só em 1932, quando se candidatou ao lugar de Conservador-Bibliotecário do Museu-Biblioteca Conde Castro Guimarães, em Cascais. Pessoa tinha já 44 anos, e uma considerável obra escrita e pouco publicada. E era desmedida a preocupação em organizar a sua obra. Quando estiver no Rossio pode ouvir o episódio seguinte.

Percurso entre a Brasileira e o Rossio pela Rua do Carmo / Baixa - Chiado
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