Vozes: Rita Patrício, Fernando Cabral Martins, Teresa Rita Lopes, Jerónimo Pizarro, Richard Zenith, Hugo Curado, Steffen Dix, Luís Barroso, Paulo Bragança e Sofia Saldanha

 

Bibliografia:

Ode Triunfal

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 144.

1ª publ. in Orpheu, nº1. Lisboa Jan.-Mar. 1915. Lacunas completadas segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993

 

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996.

 - 390.

 

Obras Completas de Mário de Sá-Carneiro, Poesias, II, Com um estudo crítico de João Gaspar Simões (revisto pelo autor). Lisboa: Ática, 1978, pp. 169-174.

 

 

 

5. É no ar que ondeia tudo, é lá que tudo existe.

 

Rossio / Baixa

Narrador: Esta é a Praça D. Pedro IV, também conhecida como Rossio. Nos números 108-110 estava localizado o Café Irmãos Unidos, um dos locais onde se reunia a Geração de Orpheu. Almada Negreiros pintou para este café o retrato de Pessoa. Podemos vê-lo na Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, um dos locais do nosso percurso. Foi nos cafés de Lisboa que se definiram as linhas do modernismo português.

 

Rita Patrício: Através da correspondência de Pessoa nós vemos que há muitos encontros que são marcados para cafés e percebemos pelo relato de conversas que se passam em cafés que de facto os cafés são o palco privilegiado das tertúlias, das discussões estéticas, de toda a confraternização que envolve os protagonistas do modernismo, das discussões, das dissensões.

 

Narrador: Pessoa frequentava muitos cafés. Só nesta praça frequentava, além do Café Irmãos Unidos, a Brasileira do Rossio e o Café Martinho do Rossio. Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa conheceram-se provavelmente num dos cafés da baixa de Lisboa.

 

Fernando Cabral Martins: O Sá Carneiro e ele encontraram-se em 1912.

 

Teresa Rita Lopes: Talvez finais de 1911. Em 1912 o Mário de Sá Carneiro foi para Paris, estudar direito, mas é claro, acho que se devem contar pelos dedos de uma mão, as vezes que ele foi à faculdade, não é?

 

Fernando Cabral Martins: Nessa altura, em Paris vivia-se o tempo da vanguarda e portanto o Sá Carneiro transmitiu via carta, sobretudo, toda a movência e todo o entusiasmo vanguardista daqueles anos em Paris.

 

Jerónimo Pizarro: E as cartas eram cartas de dois escritores que estavam a tentar construir o que hoje entendemos como primeiro modernismo, que estavam a tentar introduzir correntes modernas na literatura portuguesa, e que todos os textos literários que foram construindo durante 3, 4 anos os foram partilhando.

 

Richard Zenith: E através desta correspondência podemos perceber a influência que houve, e penso na verdade que a influência era sobretudo de Mário de Sá Carneiro em Fernando Pessoa.

 

Narrador: É uma correspondência que se conhece apenas parcialmente. A grande parte das cartas que Pessoa escreveu a Sá Carneiro perderam-se num hotel em Paris.

 

Richard Zenith: E através desta correspondência podemos perceber a influência que houve, e penso na verdade que a influência era sobretudo de Mário de Sá Carneiro em Fernando Pessoa.

 

Rita Patrício: Quer Fernando Pessoa, quer Mário Sá Carneiro olham para a sua contemporaneidade achando que é necessário haver uma agitação imediata. E a missão dos poetas é nesse sentido uma missão de vanguarda, de vanguarda histórica, ou seja, de sintonizar Portugal com o resto da Europa.

 

Teresa Rita Lopes: Uma das maneiras de acertar o passo pela a Europa era criar uma revista, havia muitas revistas naquela altura.

 

Rita Patrício: Pessoa estreia-se não como poeta, mas como crítico literário nas páginas da Àguia anunciando um supra Camões, ou seja, anunciando uma figura que viria revolucionar toda a poesia portuguesa e que viria inaugurar, um novo apogeu para a literatura portuguesa e desde então, isto foi em 1912, e desde então Pessoa ensaia várias tentativas de organização de revistas.

 

Teresa Rita Lopes: O Pessoa, nos seus tempos ainda de fervor nacionalista, tinha pensado criar uma revista chamada Lusitânia. Depois do encontro com o Sá Carneiro começaram a pensar numa que se chamaria Europa, depois acabou por ser Orpheu.

 

Rita Patrício: Orpheu é de facto o grande momento modernista. É um abalo que atinge Lisboa, que tem várias réplicas depois menores. Imediatamente se tornou notícia, pelo lado excêntrico da revista, e foi imediatamente apelidada de uma revista de loucos, de saídos de Rilhafoles, e portanto o escândalo assegurou um sucesso comercial. Aliás, Pessoa tenta enviar a revista para um amigo que estava nos Açores e questiona-se sobre se arranjará exemplares, exactamente porque a revista foi sob esse ponto de vista um êxito.

 

Narrador: Orpheu - Revista Trimestral de Literatura foi editada em finais de Março de 1915. Do Orpheu saíram dois número. O terceiro número, do qual conhecemos as provas, nunca aconteceu. O pai de Mário de Sá Carneiro, financiador dos primeiros números recusou-se a pagar mais despesas de tipografia.

 

Rita Patrício: O nome Orpheu é um nome muito curioso para uma revista modernista que causa tanto escândalo em Portugal. Orpheu é um nome de uma personagem mítica a que está associado um mito muitas vezes ligado às coisas poéticas. Orpheu tem a possibilidade de ir resgatar Eurídice, a figura amada aos infernos, porque ela morreu. É-lhe concedida essa graça sob uma condição, a condição é de nunca olhar para trás uma vez resgatada Eurídice e só pode vê-la à luz do dia. Acontece que Orpheu não resiste e a meio do caminho olha para trás e Eurídice perde-se para sempre. O drama de Orpheu é o drama de não resistir à sedução do passado. Toda a novidade que a arte de Pessoa comporta significa tal como o olhar de Orpheu sempre um olhar para trás. Pessoa acharia repugnante qualquer arte que fosse amnésica.

 

Ricardo Reis: Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero.

 

Steffen Dix: O modernismo em Pessoa é, são todos os estilos, todas todos os tempos da antiguidade e da modernidade ao mesmo tempo.

 

Rita Patrício: Se todo o século XIX vive da ideia de que o poeta deve exprimir-se e a obra de arte é uma expressão da sua individualidade, da sua subjectividade, os modernistas chamam a atenção para a ficção e para a mentira que toda a arte tem que ser, e para isso a vida que o poeta tem tanto importa como todas a vidas que o poeta pôde ter.

 

Jerónimo Pizarro: E Fernando Pessoa complica isso muito mais. Indica que, a certa altura, que apenas os escritores fracos é que poderiam ser completamente sinceros quando escrevem. É verdade, há este poema famoso "O poeta é um fingidor", mas a data do "O poeta é um fingidor" é a data do dia das mentiras, e portanto nós estamos a perder a piada toda, porque claramente, claro é a ideia de fingimento, mas é no dia do fingimento e está a brincar connosco.

 

Álvaro de Campos:

Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,

Como eu vos amo de todas as maneiras,

Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto

E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)

E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!

Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

 

Richard Zenith: O Pessoa em 1914 nascem os seus heterónimos e aí, Sá Carneiro fica muito impressionado com a, com este milagre, com estes outros eus que Pessoa inventa. Ele escreve uma carta a Fernando Pessoa, e é precisamente a comentar sobre os heterónimos de Pessoa, que ele acha uma coisa fantástica e que a capacidade de Fernando Pessoa sentir coisas que ele não viveu. Então aí não é tanto que Pessoa influência Sá-Carneiro, é simplesmente que Sá Carneiro fica Sá Carneiro, que é um grande poeta, mas nisto ele não conseguia acompanhar Fernando Pessoa.

 

Mário de Sá-Carneiro: Paris, 13 de Julho de 1914: “(...) eu a cada linha mais sua que leio sinto crescer o meu orgulho: o meu orgulho por ser, em todo o caso, aquele cuja obra mais perto está da sua – perto como a terra do sol – por o contar no número dos bem íntimos e em suma: porque o Fernando Pessoa gosta do que eu escrevo.

 

Richard Zenith: O suicídio de Sá-Carneiro é premeditado e parece que estava de certo modo escrito, no seu génio, não é?, porque ele queria ir sempre até ao fim, não é?, e, sem, na escrita e finalmente também na vida.

 

Narrador: No dia do suicídio, A 26 de Abril de 1916,  Sá-Carneiro escreve um bilhete a Pessoa:

 

Mário de Sá-Carneiro: “Um grande, grande adeus do seu pobre Mário de Sá-Carneiro”.

 

Richard Zenith: Sá Carneiro tinha nessa altura dois bons amigos, e combinou para um amigo ir lá a casa dele, por um motivo qualquer, e quando este amigo chegou Sá-Carneiro já tinha ingerido a estricnina. Depois telefonaram à ambulância, levaram ao hospital, mas era tarde de mais, claro.

 

Narrador: Fernando Pessoa recebeu a notícia da morte de Sá Carneiro num escritório aqui na baixa. 18 anos após a morte do amigo, evoca num poema o reencontro entre os dois, num outro tempo e numa outra dimensão.

 

Fernando Pessoa:

“Ah, meu maior amigo, nunca mais

Na paisagem sepulta desta vida

Encontrarei uma alma tão querida

Às coisas que em meu ser são as reais.

Não mais, não mais, e desde que saíste

Desta prisão fechada que é o mundo,

Meu coração é inerte e infecundo

E o que sou é um sonho que está triste.

 

Narrador: Seguimos agora para a Praça da Figueira, a nossa próxima paragem.

 

Rossio / Baixa
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Rossio / Baixa
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