Vozes: Jorge Louraço, Antonio Cardiello, Rita Patrício, Jerónimo Pizarro, Richard Zenith, Teresa Rita Lopes, Pablo Javier Pérez López, Fernando Cabral Martins, António Durães e Sofia Saldanha.

 

Bibliografia:

Fernando Pessoa, “Lisboa: O que o turista deve ver”, tradução de Eugénia Brito.

 

O pastor amoroso perdeu o cajado, 10-7-1930

“O Pastor Amoroso”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).

  - 101.

 

Fernando Pessoa [Carta a Adolfo Casais Monteiro - 13 Jan. 1935]

Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de Antoónio Quadros.) Lisboa: Publ. Europa-América, 1986.  - 199.1ª publ. inc. in Presença, nº 49. Coimbra: Jun. 1937

 

WHITMAN, Walt, Poem. London : Review od reviews office 1894? (The Masterpiece Library The Penny Poets ; XXVII), p. 7-32.Terá que mencionar: Tradução livre de Sofia Saldanha: traduzido do inglês para o português.

 

6. Sou imenso, em mim habitam multidões

 

Praça da Figueira /Baixa

Narrador: Estamos na Praça da Figueira. No início do século XX havia aqui um Mercado. Pessoa descreve-o no livro “O que o turista deve ver”, “What the tourist should see”:

 

Fernando Pessoa: “Este Mercado é muito movimentado, vivo: tem um telhado de vidro sobre uma construção de metal, e organiza-se num grande número de lojas e bancas, umas voltadas para as ruas, outras para o interior do edifício. As manhãs, muito agitadas, são a melhor altura para visitá-lo.”

 

Narrador: Imagine. Uma mulher depena um frango, outra esfola um coelho. É uma roda-viva de personagens: marinheiros de branco, chegam e partem. Na rua passam carros, eléctricos e bicicletas. Um polícia sinaleiro ajeita o chapéu e dá indicações com a ajuda de um apito. Discutem-se preços e produtos. Trocam-se ideias.

 

Antonio Cardiello: Fernando Pessoa obviamente chega a uma maturidade crítico-literária, num período, digamos assim, pós-Orpheu. Mas ao mesmo tempo ele está a incorporar uma série de conhecimentos. Temos os trágicos gregos, temos os filósofos pré-socráticos, temos a filosofia iluminista, evolucionista, temos o idealismo, o simbolismo decadentismo francês, temos o romantismo alemão, temos a teosofia, temos o esoterismo, temos a astrologia. Temos toda uma série de autores e conhecimentos e toda essa informação que de facto ele encontra, que ao longo de 15 anos deixou apurar, depois vem ao lume.

 

Rita Patrício: A forma mais imediata da obra de Pessoa, aquilo que nós chamamos os heterónimos, a heteronímia, dá a ver de uma maneira espectacular e de uma maneira muito impressionante aquilo que é a consciência de todo o século XX, ou seja, a crise do sujeito, a incapacidade do indivíduo se reconhecer uno, pleno.

 

Jerónimo Pizarro: Fernando Pessoa diz que praticamente esse fenómeno do heteronimismo, é um fenómeno que começa na infância, na primeira infância já com o Chevalier de Pas, esse cavalheiro da negação, e com outras personagens e a ideia genérica era uma obra escrita em nome da minha pessoa Pessoa e uma parte escrita em nome de outras pessoas, heterónimos, semi-heterónimos ou todo o tipo de autores fictícios.

 

Richard Zenith: Fernando Pessoa definiu-se como um poeta dramático sobretudo, não é?

 

Teresa Rita Lopes: Ele dizia que um dos heterónimos eram um drama, porque era um monólogo dramático e todos juntos constituíam outro drama.

 

Pablo Javier Pérez López: O Drama em Gente que vai para além da tragédia, porque é uma tragédia viva, no sentido de que há autores dentro do autor, incluindo o próprio Pessoa que também faz parte deles como heterónimo. O Pessoa autor e o Pessoa heterónimo.

 

Teresa Rita Lopes: Heterónimos mesmo, cada um com vida própria e estilo próprio são só três.

 

Richard Zenith: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

 

Antonio Cardiello: Estes quatro heterónimos, considerando Fernando Pessoa um próprio heterónimo de si mesmo, são, cada um representaria um aspecto da sua estética, e do seu projecto poético-filosófico.

 

Jerónimo Pizarro: Fernando Pessoa apresenta Álvaro de Campos na revista Orpheu em 15, apresenta Caeiro e Reis na Athena em 24, 25.

 

Fernando Cabral Martins: São três personalidades fortes, três personalidades de poeta que têm a sua obra, têm a sua biografia, têm a sua história pessoal e têm sobretudo uma relação que se estabelece entre eles. Um deles é o mestre, depois há dois discípulos, sendo que os dois discípulos são entre si completamente opostos e diferentes, um é um classicista e o outro é um modernista.

 

Pablo Javier Pérez López: O Ricardo Reis é mais estóico, o Álvaro de Campos é mais Nietzscheano, no sentido da violência, do conceito, da luta contra os preconceitos da sociedade, da luta contra os grandes nomes filosóficos, académicos, e o próprio Pessoa também representa um bocado a própria luta entre um Platão e um Homero, a luta entre a racionalidade e o instinto.

 

Fernando Cabral Martins: O mestre por sua vez escapa completamente às definições. O Alberto Caeiro é, interpreta, esse mesmo desejo de regresso à raiz, ao original.

 

Pablo Javier Pérez López: Ele representa o próprio paganismo. Recuperar, o próprio Pessoa disse, a primitiva forma grega de filosofar através da poesia. Isto é o Alberto Caeiro.

 

Fernando Cabral Martins: E por isso é que ele é o mestre, não é? Porque foi capaz de voltar à fonte e traz um conhecimento que pode matar a sede dos modernos. A essa água chama-se sensacionismo.

 

Rita Patrício: Pessoa desde muito cedo começou a tentar teorizar sobre a arte que queria fazer. E multiplicou-se em ismos: o interseccionismo, o paúlismo, depois o sensacionismo. Qual é o princípio base do sensacionismo? É a ideia de que a sensação é a base de toda a consciência, nós somos sensações que são pensadas pela nossa consciência.

 

Fernando Pessoa: “Pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida.“

 

Narrador: Pessoa explica os heterónimos numa carta a Adolfo Casais Monteiro, um dos directores da revista literária Presença. Esta famosa carta está datada de 13 de Janeiro de 1935. E é aí que Fernando Pessoa fala do mítico Dia Triunfal.

 

Fernando Pessoa: “Foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim.“

 

Jerónimo Pizarro: Ora nós sabemos que, que a história está mal contada, que tinha que ser mal contada, porque era uma história poética e não podia ficar apenas pela verdade. E o Caeiro novo, mestre, mas novo, o Caeiro que morre antes do tempo, o Caeiro que não tem que pensar para escrever, o Caeiro espontâneo, é um muito e é um mito que Fernando Pessoa tinha que conservar em 35.

 

Narrador: Mas essa espontaneidade nunca foi simples. O universo puro e sensacionista do mestre também se cruza com o amor.

 

Alberto Caeiro:

O pastor amoroso perdeu o cajado,

E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,

E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.

Ninguém lhe apareceu ou desapareceu.

Nunca mais encontrou o cajado.

Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.

Ninguém o tinha amado, afinal.

 

Narrador: Há outro para a explicação dos heterónimos. São as "Notas para a recordação do meu mestre Caeiro" assinadas Álvaro de Campos. Nessas notas, descrevem-se os encontros entre os heterónimos. Figura aí, também, António Mora, “um filósofo animado pela poesia”, que nos dá algumas luzes sobre sobre o pensamento de Alberto Caeiro e sobre o neopaganismo.

 

Fernando Cabral Martins: O António Mora é outra figura importante, tal como havia o Raphael Baldaya que era o astrólogo que fazia cartas astrológicas e que dava consultas de astrologia. Tal como havia um Thomas Cross que se destinava a fazer charadas, a resolver charadas, e tal como havia outros que, o tal Pêro Botelho, que têm menos obra ou então têm só obra atribuída, ou então têm só biografia e que têm a ver com uma dimensão do heterónimo que é meramente lúdica, que não é literária, nem poética.

 

Richard Zenith: Eu penso que sobre a heteronímia, a classificação do que é o heterónimo, o que não é um heterónimo, ou se há pré-heterónimos, ou sub-heterónimos, eu acho que não interessa muito a questão. Eu acho que em Fernando Pessoa também é muito difícil separar a vida da obra, não é?, é tudo uma continuidade entre as duas coisas.

 

Narrador: Em 1929 aparece outra figura, um semi-heterónimo, assim designado pelo próprio Pessoa, na carta de 35. Chama-se Bernardo Soares. Um ajudante de guarda-livros que vive e trabalha na Rua dos Douradores, a nossa próxima paragem.

 

Praça da Figueira /Baixa
Praça da Figueira /Baixa
Praça da Figueira /Baixa
Praça da Figueira /Baixa