Vozes: António Fonseca, Richard Zenith, Jerónimo Pizarro, Pablo Javier Pérez López, Pedro Sepúlveda e Sofia Saldanha

 

 

Bibliografia:

Livro do Desassossego, Bernardo Soares; Richard Zenith; Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

7. Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores.

 

Rua dos Douradores / Baixa

Bernardo Soares: “Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito, então, parece-me a eternidade”.

 

Narrador: O Livro do Desassossego é uma espécie de diário, escrito por esse mítico autor Bernardo Soares.

 

Richard Zenith: O conteúdo do Livro do Desassossego é sobretudo pensamentos e sentimentos, ideias de Fernando Pessoa. E por isso ele diz que Bernardo Soares, o autor do Livro do Desassossego era um semi-heterónimo, porque não era completamente outro, era um semi-Pessoa, bastante como ele. O Livro do Desassossego Pessoa começou a escrever em 1913 e sem saber muito bem o que ia ser, não é?, então começou a escrever trechos que eram às vezes como visões, de cenários medievais, ou de senhoras virgens, simbólicas, inexistentes.

 

Jerónimo Pizarro: E eu tenho quase a certeza que o Desassossego na primeira fase, que é uma fase mais decadente, está muito, muito próximo da linguagem de Mário de Sá Carneiro.

 

Narrador: O livro foi escrito em duas fases, uma primeira fase que vai de 1913 a 1920. O primeiro excerto “Na Floresta do Alheamento foi publicado em 1913, na revista Águia.

 

Jerónimo Pizarro: A Floresta do Alheamento não tinha uma personagem, não havia propriamente autor. A Floresta do Alheamento até é assinada por Fernando Pessoa. É uma floresta perdida, no tempo e no espaço.

 

Richard Zenith: Depois em 1914 Vicente Guedes torna-se o protagonista. E este Vicente Guedes, segundo um ou outro trecho, também era ajudante de guarda-livros e trabalhava na baixa lisboeta.

 

Jerónimo Pizarro: O livro fica parado durante muito tempo, muito tempo são 10 anos, fica abandonado, e quando reaparece em 1929 é outro livro. É outro livro,  porque já não temos essas florestas não identificadas, o alheamento, e o ensimesmamento, e o isolamento de Fernando Pessoa já são muito, muito mais relativos.  Em 1929 aparece uma coisa que não estava antes, aparece Lisboa.

 

Richard Zenith: E nessa segunda fase que escreveu intensamente até 1934, traz a figura de Bernardo Soares para o livro como protagonista.

 

Jerónimo Pizarro: O livro de finais dos anos 20 é um livro em que está a Rua dos Douradores que ficou famosa, em que está a baixa lisboeta, em que estão os eléctricos, em que há gatos, em que há o Senhor Moreira, em está o chefe do escritório, coisas concretas que nitidamente não estavam antes. E esse segundo livro já não é de um leitor de Sá Carneiro, ainda tem partes expressionistas até, é de um leitor já que se afastou no tempo, do primeiro modernismo, e está a tentar escrever de outra maneira que já era a forma em que um Cesário Verde tinha tentado reagir às tendências românticas.

 

Pablo Javier Pérez López: É um livro profundamente filosófico e que tem a ver com a geografia da alma da cidade e da alma do habitante da cidade de Lisboa. Também o grande assunto do Livro do Desassossego é a viagem no tempo, mas também a viagem no próprio ser. Ele viaja na sua própria essência.

 

Narrador: Em vida Pessoa apenas publicou 12 excertos do Livro do Desassossego. Tudo o resto ficou amontoado numa arca entre mais de 30 mil papéis. A compilação dos textos foi publicada pela primeira vez em 1982. Pessoa deixou algumas ideias de organização do livro, mas nada de definitivo. Por isso, em cada nova edição a ordem dos textos altera-se.

 

Pedro Sepúlveda: O editor tem que tomar uma série de decisões, como se os textos pertencem ou não ao livro, por que ordem pertencem ao livro, se a figura autoral do livro é o Bernardo Soares ou é o Fernando Pessoa, ou é o Vicente Guedes ou é ambos, se a organização deve ser temática, se deve ser cronológica.

 

Narrador: A Rua dos Douradores terá ou não o mesmo pulsar de há anos, mas Pessoa pisou esta calçada nas suas deambulações por Lisboa e foi aqui, aqui mesmo, que Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros viveu e trabalhou. E sonhou até em ir-se embora.

 

Bernardo Soares: “Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser. Mas de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado modesto do meio-dia, uma impressão de desagrado me assaltou o sonho: senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse circunstanciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo - tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era uma metade e semelhança da morte. “

 

Narrador: Pessoa nunca trabalhou nem viveu na rua dos Douradores. Mas foi correspondente comercial em muitas empresas aqui na cidade baixa. A nossa próxima paragem é um desses locais. Vamos agora para a Rua da Assunção.

 

Rua dos Douradores / Baixa
Rua dos Douradores / Baixa
Rua dos Douradores / Baixa
Rua dos Douradores / Baixa