Vozes: Richard Zenith, Manuela Parreira da Silva, Manuela Nogueira, Marta Campos, Jorge Louraço, Pedro Teixeira da Mota, Steffen Dix, Pablo Javier Pérez López e Sofia Saldanha

 

Música: “Nocturne Op 9 No 3” by Podington Bear

Free Music Archive / Attribution-NonCommercial 3.0 Unported (CC BY-NC 3.0)

 

 

 

Bibliografia:

“Todas as cartas de amor são ridículas”

21-10-1935

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 84.

1ª publ. in Acção, nº41. Lisboa: 6-3-1937.

 

“O FERNANDO E EU”

Relato da Ex.ma Senhora Dona Ophélia Queiroz,  destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim (2012)

 

8. Todas as cartas de amor são ridículas

 

Rua da Assunção / Baixa

Narrador: Deve estar na Rua da Assunção. No segundo andar do número 42 estava sediada a firma Félix, Valladas & Freitas Lda. Um dos sócios da empresa era Mário Freitas, primo de Fernando Pessoa, filho da tia Anica.

 

Richard Zenith: Ele trabalhava, colaborava um pouco no escritório do seu primo, e apareceu lá a pedir emprego Ofélia Queiroz.

 

Manuela Parreira da Silva: A Ofélia Queiroz era uma jovem, pequeno burguesa, que trabalhava como, como dactilógrafa suponho.

 

Manuela Nogueira: Porque ela era muito avançada para a idade, para a época, uma mulher que vai trabalhar para uma empresa com homens, naquela altura, é porque era uma mulher um bocadinho diferente da maioria que havia, não é? Era engraçada, era esperta e foi a ocasião, a ocasião é que faz tudo, não é? Ela foi pedir ali um emprego, ele viu-a.

 

Narrador: Um dia estavam no escritório, há uma falha de luz e é nesse momento que tudo começa.

 

Manuela Parreira da Silva: Segundo ela conta, ele pediu que quando à hora da saída do escritório que ela ficasse mais um bocado, deixasse os outros todos saírem, e ele depois ter-se à ajoelhado junto dela e começou a recitar uma parte do Hamlet de Shakespeare, portanto a cena é que Hamlet se declara à sua Ofélia, não é?, que também tinha esse nome por curiosidade.

 

Ofélia Queiroz: “Fiquei perturbadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me, apaixonadamente, como louco. (…) Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever-lhe uma carta, pedindo-lhe uma explicação.“

 

Richard Zenith: E começou uma grande correspondência. E é interessante por vários motivos. Por um motivo é simplesmente uma correspondência completa de um, de dois namorados dessa altura, dessa época. E depois ela saiu desse escritório, depois de poucos meses, foi para um outro e Pessoa andava com ela ao emprego, no eléctrico.

 

Manuela Parreira da Silva: Faziam assim um trajecto o mais longo possível, para falarem mais tempo, suponho que dessem pequenos passeios a pé, porque ela refere no, que ele de vez em quando a puxava para uma, para a entrada de um prédio para a beijar. Aliás as cartas mostram exactamente isso, que havia um contacto físico, algumas intimidades. Quando ele diz a certa altura, 'quem me dera deitar a minha cabeça nos seus pombinhos, não é?, subentende-se que evidentemente se trataria dos seios.

 

Narrador: Em 1920 Ofélia tinha 19 anos e Pessoa 31. O namoro entre os dois teve duas fases.

 

Manuela Parreira da Silva: Numa primeira fase, talvez ela tivesse pensado que, em pouco tempo aquele namoro se transformaria assim num noivado e depois num casamento. Portanto, porque isso era o que era mais usual.

 

Narrador: Esta primeira fase dura até Novembro de 1920. O namoro acaba. Escrevem-se cartas de despedida.

 

Ofélia Queiroz:

“Lisboa, 27 de Novembro de 1920

Fernando, há já quatro dias que não me aparece, nem sequer se digna a escrever-me.(…) Como o Fernando não tem motivos para acabar, procede então da forma que procede. Pois bem eu assim não estou resolvida a continuar (…) Não sou o seu ideal compreendo-o claramente (…) Porque se gostasse de mim não procederia como procede, pois não teria coragem. Os feitios contrafazem-se. O essencial é gostar-se. Está a sua vontade feita. Desejo-lhe felicidades. Ofélia Queirós”

 

Fernando Pessoa:

“19.11.1920

Ofélinha: Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. (…) Estas cousas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. (…) O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofélinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam. Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha. Fernando”

 

Narrador: Na época era comum quando um namoro acabava devolver-se as cartas e os presentes que os namorados davam um ao outro.

 

Manuela Parreira da Silva: Mas o Fernando Pessoa numa das cartas diz isso, precisamente quando acaba o namoro, em 1920, 'não façamos como as pessoas vulgares, que são sempre um pouco enfim, não, vamos ficar cada um com as coisas que cada um tinha do outro’.

 

Pedro Teixeira da Mota: Depois em 29 há o retorno da relação entre os dois. Fernando Pessoa entrega ao Carlos Queiroz que era um poeta valioso e que era sobrinho da Ofélia, entrega-lhe uma fotografia no Abel em que o Fernando Pessoa está a beber na calma, e ele, o Carlos Queiroz mostra à nossa amiga Ofélinha a fotografia, a Ofélinha fica a gostar de novo dele, ou relembra-se dele, e pede-lhe para ele lhe mandar uma fotografia, uma cópia também, manda a fotografia dele a beber uns copos, e aí é que Fernando Pessoa escreve a fabulosa frase "em flagrante de litro", e aí restaura o namoro entre eles. Mas não vai de muita duração em termos de escrita, porque eles depois continuam a falar-se ao telefone etc., mas pronto o Fernando Pessoa de facto, aí qual é a resposta que ele dá? A resposta que ele dá é "tenho uma obra literária a fazer".

 

Manuela Nogueira: Ele tinha aquela obra toda na cabeça. E ele achava que não tinha tempo para organizar a sua obra, e se tivesse que pagar uma renda de casa e escolas aos filhos e ainda dar atenção à mulher, ele não fazia nada, ele achava isso.

 

Manuela Parreira da Silva: Mas de qualquer modo eu acho que ela até ao fim, talvez por um lado tenha tido sempre alguma esperança, sobretudo quando o namoro voltou, em 1929, e portanto começou também a fazer cedências, como eu dizia há pouco de dizer, 'se'...' eu prometo que depois não o incomodava, deixava-o fazer o seu trabalho'.

 

Narrador: Mas vive neste namoro uma terceira pessoa: Álvaro de Campos.

 

Manuela Parreira da Silva: Portanto, o Álvaro de Campos escreve à Ofélia, a Ofélia responde ao Álvaro de Campos, portanto ela sempre a dar sequência à brincadeira, não é? E embora se manifestasse sempre muito pouco a simpatizar muito muito pouco com a figura do Álvaro de Campos.

 

Steffen Dix: E o Pessoa ficou fascinado, porque a Ofélia entrou no jogo, ela jogou com ele aquele jogo dos heterónimos. Isso explica também a sua proximidade emocional com a Ofélia.

 

Manuela Parreira da Silva: Porque ela percebia perfeitamente o alcance de tudo aquilo que o Fernando Pessoa lhe dizia e as respostas que dá mostra que ela estava muito por dentro do que ele pensava, do que ele pretendia fazer, etc.

 

Pablo Javier Pérez López: Eu acho que Ofélia reconhece no Pessoa um espírito gémeo quase. Há neles uma cumplicidade que tem a ver com o facto de serem pessoas muito sensíveis, se calhar numa altura histórica complicada para viver, por muitos preconceitos, por questões de conservadorismo social, político, etc. E portanto acho que o Pessoa encontra antes de mais uma maneira de afogar a solidão.

 

Manuela Parreira da Silva: O Fernando Pessoa morreu em 1935. A Ofélia, se não me engano, em 1938 casou, na altura que se casou, quis destruir as cartas do Fernando Pessoa, como era também comum na época, mas o marido da Ofélia não deixou que ela se desfizesse das cartas, portanto disse, terá dito que não, que ela não devia queimar, nem destruir as cartas, porque as cartas de um poeta como o Fernando Pessoa não se destroem.

 

Narrador: As cartas do Fernando Pessoa para a Ofélia foram publicadas em 1978, mas só em 1996, 5 anos depois da morte da Ofélia, a correspondência completa. É com uma carta enviada de Lisboa para Inglaterra, que se inicia o improvável encontro de que falaremos no próximo episódio. A Rua Augusta é a nossa próxima paragem. Vamos descer a rua em direcção ao Terreiro do Paço.

 

Rua da Assunção / Baixa
Rua da Assunção / Baixa
Rua da Assunção / Baixa
Rua da Assunção / Baixa