Vozes: Steffen Dix, Aleister Crowley, Luís Miguel Nogueira Rosa Dias, Jerónimo Pizarro, José Filipe Costa e Sofia Saldanha

 

 

Bibliografia:

The Pentagram. Aleister Crowley

 

Dá a surpresa de ser. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 123.

 

O Mistério da Boca do Inferno - O encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley . Victor Belém. Lisboa. Casa Fernando Pessoa, 1995.  - .Excerto da reportagem de Augusto Ferreira Gomes. in O Notícias Ilustrado . Lisboa: 5-10-1930.

 

O Mistério da Boca do Inferno - O encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley . Victor Belém. Lisboa. Casa Fernando Pessoa, 1995.  - .Excerto da reportagem de Augusto Ferreira Gomes. in O Notícias Ilustrado . Lisboa: 5-10-1930.

 

9. Boca do Inferno

 

Rua Augusta

Narrador: Estará agora a descer a Rua Augusta em direcção ao Terreiro do Paço. Em 1929 Fernando Pessoa está a ler o primeiro volume das Confissões de Aleister Crowley, um mago e ocultista britânico, que na viragem do século XIX para o século XX teve grande notoriedade.

 

Steffen Dix: Conhecia várias figuras famosas, conhecia, estava em contacto com Aldous Huxley, com Albert Einstein, preparou uma exposição em Berlim com alguns grandes modernistas alemães, e neste sentido o Crowley era uma pessoa mesmo muito internacional, que viveu entre Berlin, Londres e Paris e fez as suas grandes viagens e o Pessoa viveu naquela pequena baixa lisboeta, e pronto neste sentido não houve coisas opostas maiores que Crowley e Pessoa.

 

Narrador: Crowley foi apelidado pela imprensa daquela época como “the wickedest man in the world”. Ele próprio identificava-se como anticristo e auto-intitulava-se “A Besta 666”. No dia 4 de Dezembro de 29 Fernando Pessoa escreve à Mandrake Press de Crowley, a a corrigir um erro no horóscopo do mago.

 

Steffen Dix: E perguntou se a editora pode falar com Crowley pessoalmente e a editora fez isso. Depois o Crowley entrou em contacto, talvez achou Pessoa interessante e disse relativamente rapidamente que ia, vinha para Portugal, mas aquela ideia de vir para Portugal.

 

Narrador: Começa aí uma correspondência que leva a um encontro entre Pessoa e o mago a 2 de Setembro de 1930, em Lisboa.

 

Steffen Dix: Crowley estava naquela altura em grandes problemas pessoais, estava a preparar um divórcio, teve problemas financeiros e encontrou naquela altura em Berlim uma jovem artista alemã, que é a Hanni Jaeger, queria praticamente fugir com a Hanni Jaeger para um sítio, vamos dizer, imparcial, onde não está, longe dos seus problemas pessoais. Neste sentido era mais, uma coisa mais lúdica, uma fuga de Crowley do que qualquer intenção esotérica, ou a intenção de fundar aqui uma ordem, um culto.

 

Narrador: Quem também estava com problemas financeiros era a Mandrake Press e andava à procura de um financiador.

 

Steffen Dix: É curioso que eles acharam que Pessoa seria uma pessoa capaz de pagar uma coisa, e o Pessoa teve, mostrou aqui uma certa inocência e estava a estava mesmo a pensar sobre a possibilidade de publicar alguns autores portugueses na Inglaterra e também ele pensava, claro, em si próprio, aliás houve um projecto, é uma pena que não funcionou, um projecto de alguns poemas de Pessoa com o posfácio ou prefácio de Aleister Crowley.

 

Narrador: Imagine esta rua em 1930. Não era uma rua pedonal. Fernando Pessoa também aqui trabalhou. A agitação da rua Augusta devia-se sobretudo ao comércio. No passado, ainda a cidade baixa não estava completamente construída, um decreto destinou-a aos mercadores de lã e de seda.

 

Steffen Dix: Quando eles estavam a passear aqui em Lisboa, aquele casal muito urbano, cosmopolita, nesta pequena cidade provinciana, onde praticamente todas as mulheres estavam vestidas de preto, com saias até ao, até ao chão, talvez os portugueses naquela altura estavam a considerar Crowley e Hanni Jaeger muito exóticos e Crowley e Jaeger consideraram os portugueses muito exóticos. Crowley e Hanni Jaeger ficaram só uma noite em Lisboa e foram depois directamente para cascais ou para o Estoril. Mais importante para Crowley era a praia e o sol.

 

Narrador: Pessoa visita-os. E data dessa altura um poema, que é considerado o mais erótico de Fernando Pessoa.

 

Steffen Dix: Talvez o Pessoa testemunhou lá uma sessão de magia sexual entre os dois, não sei. Pessoa teve um certo fascínio por Hanni Jaeger, isso é claro.

 

Fernando Pessoa:

Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?

Ó fome, quando é que eu como?

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: Entretanto, Aleister Crowley teve um, um devaneio demasiadamente activo, fizeram lá uma coisa qualquer sexual demasiadamente alta, de tal maneira que o manager expulsou aquele casal.

 

Narrador: Ou talvez a razão da expulsão fosse, simplesmente, porque Crowley e Jaeger não tinham dinheiro para pagar a conta do hotel.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: A rapariga ficou muito impressionada com aquilo, foi à embaixada americana e conseguiu falar lá com o embaixador, e esse por sua vez arranjou-lhe a passagem para ela ir para, para voltar para Berlim. O Aleister Crowley ficou aflitíssimo porque não a encontrou-a e não sei que mais, e então resolveu fazer um barulho muito grande.

 

Narrador: E é aí que com a ajuda de Fernando Pessoa, simula o suicídio na Boca do Inferno. Supostamente foi encontrada uma nota de suicídio debaixo de uma cigarreira com desenhos egípcios, supostamente escrita por Crowley:

Crowley: L.G.P.

                        Ano 14, Sol em Balança

Não posso viver sem ti. A outra "Boca do Infierno" (sic) apanhar-me-á — não será tão

quente como a tua.

        Hisos

                                Tu LiYu.

 

Narrador: E o caso tornou-se público.

 

Luís Miguel Nogueira Rosa Dias: a coisa depois saiu em grandes parangonas, o Século Ilustrado e depois mais tarde na revista Detective francesa. Quem escreveu todo o artigo foi o Fernando Pessoa e em inglês, francês e não sei quê, bem.

 

Jerónimo Pizarro: Crowley contribui para que Fernando Pessoa, que estava a escrever romances policiais, comece a escrever outro romance policial fingindo o suicídio na Boca do Inferno de Aleister Crowley.

 

Narrador: Talvez esse policial tivesse lançado Pessoa internacionalmente. Mas como muitas das ideias de Fernando Pessoa ficou por concluir.

 

Jerónimo Pizarro: Fora, digamos, dessa instrumentalização de Aleister Crowley para um romance policial, e Crowley talvez terá conseguido que Fernando Pessoa se tivesse interessado ainda mais pelo hermetismo e pelo ocultismo e pela iniciação em tempos em que já estava muito interessado, e a verdade é que há muitos textos de ocultismo de Fernando Pessoa a seguir ao encontro com Aleister Crowley, e que talvez o mais importante do encontro não foi Crowley, foi o que Crowley representava no mundo ocidental, como uma das figuras mais emblemáticas na recuperação de tradições ocultas.

 

Narrador: A relação entre os dois acabou em 1931. Crowley ainda continuou a escrever a Pessoa durante alguns meses, mas a partir de certa altura, de Pessoa nunca mais teve resposta.

 

Rua Augusta
Rua Augusta
Rua Augusta
Rua Augusta